quarta-feira, 22 de maio de 2019

QUADRA DA DESPEDIDA

(A Genilda, minha amiga)
Um adeus te digo nunca;
Um adeus não me vem;
Um adeus me vem na garganta;
Um adeus! não vejo ninguém.
Ainda um livro na minha mesa;
Era seu, você me emprestou!
Ainda saudades da leitura,
É verdade você nos deixou.
Um sonho tão lindo se parte,
No sol de dia o olhar
Genilda se vai tão contente,
E nós não queremos pensar.
A tarde já vem, o sol dorme
As ruas triste se calam.
Adeus amiga Genilda,
Até que as horas não tardam.
Paulo Monteiro Dos Santos

domingo, 2 de dezembro de 2018

CRÍTICA À METAFÍSICA FEITA POR IMMANUEL KANT



 Paulo Monteiro dos Santos[1]


RESUMO: O presente trabalho tem como fim: descrever a crítica dada por Kant em relação á capacidade do conhecimento humano de saber sobre a metafísica e até onde este se limita. Também tentou-se neste artigo fazer uma síntese sobre as discussões a metafísica, desde Platão até Hume. Notou-se, por fim, que Kant bloqueia o conhecimento em relação a metafísica, mas não impossibilita sua existência.

PALAVRAS-CHAVES: Kant. Metafísica. Conhecimento
                                                                                                                               
INTRODUÇÃO

O presente artigo faz um apanhado geral da crítica que faz Kant a metafísica. Na primeira parte se pretende discutir a relação da filosofia grega e da cristã, o que resultou de um mesmo significado, no que tange a explicação da realidade pela teoria realista, mas estas diferem no que diz respeito à explicação do mundo pela origem. A grega diz que a origem se dá de forma emanentista; a cristã protesta, dizendo que a origem é criacionista, onde Deus criou o mundo.
Logo em seguida, Descartes e Bacon, retiram a ideia de uma explicação realista do mundo, afirmando que o mundo não é do jeito que vemos, pois este pode nos enganar. Descartes e Bacon dá mais importância a razão. Por ela devemos olhar o mundo livrando-o dos preconceitos. 
Estes filósofos revolucionam a ciência apresentando um novo modelo. Mas é Kant, com sua crítica ao conhecimento, quem fundamenta a teoria dos juízos, porém sua teoria, de certo modo, condenou a possibilidade de qualquer conhecimento a metafísica. Vamos entender como Kant chegou a tal conclusão.

1 HISTÓRICO DO PROBLEMA NA METAFÍSICA

Podemos perceber que a metafísica foi primeiro exposta por Platão em sua teoria do mundo das formas, onde este filósofo tentou dar uma explicação do tipo realista para descrever o mundo e a realidade que se mostra ao homem. Neste sentido Platão divide a realidade em duas: 1) mundo das formas – eidos - 2) mundo material – sombras - , onde o mundo material engana nossos sentidos, e
por essa razão, devemos buscar o conhecimento no mundo das formas, pois, nesse se encontra as verdades eternas e perfeitas (ANTISERI; REALE, 1990). Essa explicação, embora não tenha um caráter sistemático como em Aristóteles, foi a primeira grande síntese entre as filosofias de Heráclito, do movimento, e de Parmênides, sobre o ser. Mas Platão não explica de forma clara como se dá a passagem entre as formas e o mundo material. Colocando um deus modelador, Demiurgo, ou explicando pelo mito da caverna (CHAUÍ, 2000, p. 352); (CHAUÍ, 2000, p. 354)[2]. O primeiro a tentar fazer uma sistematização da metafísica foi Aristóteles, que a chamou de filosofia primeira, ou teologia (ANTISERI; REALE, 1990, p. 179). Este filósofo buscou estudar o ser, a substância e a essência. (ANTISERI; REALE, 1990). Tentou também resolver a problemática deixada por Platão sobre a questão do movimento entre matéria e forma, o qual ele explicou como ato e potência.
Porém, com a mudança da perspectiva cultural do ocidente entre o cristianismo e a cultura grega, a filosofia ganha uma nova leitura: Sai o “logos” grego e entra o “logos” cristão, e para o cristianismo as coisas não emanavam de um mundo das ideias ou de um motor imóvel, mas elas foram criadas por um Deus que em si, é monoteísta. Embora a filosofia cristã tenha assimilado muitas teorias do tipo platônicas, ela tinha uma enorme diferença em sua explicação para a origem das coisas. E seu maior nome foi Santo Agostinho. Este filósofo, com base em suas análises
hermenêuticas na Bíblia, vai dizer que Deus criou as coisas do “nada” (AGOSTINHO, 1975, p. 327). E aqui, ao menos é o que defendemos, há uma cisão e negação da cultura grega. A metafísica deixa de ser uma explicação da eminência para ter uma explicação criacionista. O cristianismo passou a dar maior “liberdade” ao homem, e pensamos que não apenas ao homem, mas também ao mundo (ANTISERI; REALE, 1990).
Santo Tomás de Aquino, outro grande nome da filosofia cristã, vai assimilar a filosofia de Aristóteles e sua teoria do ato e potência, à filosofia escolástica e mostrar pelo estudo da metafísica, a existência de Deus, e explicar a realidade do mundo, sobre esse ponto de vista. Mas tanto a filosofia grega como a cristã, entendiam o mundo de forma radicalmente realista. Ou seja, o mundo existia independentemente do homem para justificá-lo, o que preocupavam cristãos e gregos era saber qual era sua origem.
Descarte, que tinha por princípio uma filosofia racionalista, se opunha a filosofia aristotélica da escolástica. (ANTISERI; REALE, 2004, p. 287), se oponha porque para o racionalismo a verdade não depende do mundo, mas da minha própria condição de pensar. Se o mundo que vejo depende exclusivamente de meu pensamento para existir, é correto dizer que tudo o que vejo é apenas Ideias. Ideias da coisa pensante. (ANTISERI; REALE, 2004, p. 287)

A explicação anterior a Descartes, era realista. Assim, antes da modernidade, a realidade era algo determinado por leis da natureza criadas por Deus ou por um Sumo-Bem. O homem se enquadrava nestas leis e era determinado por elas. Descartes e Bacon proclamaram que as leis podem ser conhecidas pelo homem. E o homem pode modificar e manipular as leis da natureza. A grande questão era que, para Descartes, nós já tínhamos ideias inatas e não precisávamos de nenhuma experiência para conhecer as leis da natureza. (ANTISERI; REALE, 2005)
Para John Locke, (Inglaterra, 1632-1704) a mente era uma tabula rasa. Não há nada em nosso intelecto, ele recebe o material unicamente pela experiência em contato com o mundo. O empirismo que Locke proclamava é o de não apenas analisar o objeto, assim como orienta Bacon, mas de examinar a condição do sujeito frente ao objeto. Para isso Locke afirma que o conhecimento depende unicamente da experiência. (ANTISERI; REALE, 2005, p. 93) Com essa crítica ao inatismo cartesiano, Locke, e os principais filósofos ingleses vão defender uma teoria do conhecimento sobre o ponto de partida do empirismo. David Hume vai levar o empirismo a últimas consequências, formulando um ceticismo moderado, onde diz que todo o intelecto não passa de impressões, ideias e suas ligações estruturais. Não há necessidade no mundo, essas coisas são fruto da nossa capacidade intelectual. O mundo é tão somente contingente. (ANTISERI; REALE, 2005, p.133-138)  
Tanto os empiristas quanto os racionalistas defendiam uma concepção idealista do mundo, embora ambos, com explicações diferentes sobre o processo de como se dava o conhecimento. Será Kant, com seu criticismo, que unirá as duas grandes correntes na teoria dos juízos sintéticos a priori. Mas Kant levará as últimas consequências as teorias idealista da razão, negando a possibilidade de um conhecimento metafísico.

2 CRÍTICA DE KANT A METAFÍSICA

Kant, deu toda razão a Hume. Hume o acordou de um sonho dogmático, assim diz Kant. (PASCAL, 2008, p. 29-30). A causalidade não tem fundamento. O sonho da ciência era formar um princípio necessário e universal, mas não há um determinismo causal na natureza. Kant percebeu que
havia um confronto entre a ciência de Isaac Newton e o ceticismo de Hume. Além disso o embate entre empirismo e racionalismo.  Kant não era por certo um cético radical como Hume, mas havia verdades que eram universais e não apenas contingentes. "Como efeito, o empirismo cético de Hume e, em particular, a sua crítica da noção de causalidade, tornava incertas as posições do racionalismo dogmático. [...]" (PASCAL, 2008, p. 29-30). Assim Kant retoma a análise dos juízos: Analíticos e Sintéticos.
Kant chega a uma conclusão, que os juízos só são sintéticos a priori. Eles não são apenas sintéticos e analíticos. Há verdade nas discussões de empiristas e inatistas. Há relação entre a experiência e o sujeito conhecedor.

Mas a grande descoberta de Kant, a que confere todo o seu alcance à sua "revolução copernicana", é a da existência de uma terceira classe de juízos, os juízos sintéticos a priori. Estes são universais e necessários, como os juízos analíticos, mas, além disso, nos permitem ampliar os nossos conhecimentos, enquanto os juízos analíticos apenas podem explicá-los ou esclarecê-los. (PASCAL, 2008, p. 39)

Na Crítica da Razão Pura, Kant cria um sistema de faculdade para um sujeito que é transcendental. E estas faculdades são comuns a todos não apenas para um único sujeito. Na filosofia de Kant temos uma teoria da mente. (PASCAL, 2008, p. 69) A ideia básica para conhecer é matéria e
forma, assim como na teoria de Aristóteles, mas a coisa em si mesmo não podemos conhecer. A coisa em si mesmo é um caos. Nós é que pomos a forma para organizar, dar ordem a esse caos.  (PASCAL, 2008, p. 69). O sujeito transcendental, dito por Kant, tem um sistema de capacidades que pode compreender sobre a percepção do mundo, e pensar sobre o mundo. Essas capacidades devem também compreender os conceitos formulados nesse sujeito.
Temos a capacidade da sensibilidade a primeira faculdade do sujeito transcendental, e ela nos fornecem a intuição. A intuição é uma percepção imediata de fatos empíricos. O sujeito também tem a faculdade de formular conceitos, essa faculdade é do entendimento. A faculdade do entendimento se dá pelas categorias, que são doze. Tais categorias nos dão a capacidade do entendimento. Há ainda outra faculdade que liga entendimento com a faculdade da sensibilidade ela é a imaginação. Não a imaginação de ilusão, mas uma imaginação transcendental.  (PASCAL, 2008, p. 62)
 A imaginação liga a intuição aos conceitos e o resultado desta ligação são os juízos, que por sua feita, resultam nos fenômenos. A junção entre a Estética Transcendental e a Analítica Transcendental, surge a Dialética Transcendental. Na Dialética, Kant escreve sobre a Razão, assim ele aborda coisas da não sensibilidade. O conhecimento é agora uma produção humana que não apenas observa, pois, o objeto não é simplesmente dado. O problema é que a razão nesse processo de conhecer busca sempre ir além de sua capacidade. (KANT, 1980, p. 25)

Esses problemas inevitáveis da própria razão pura são Deus, Liberdade e Imortalidade. A ciência, porém, cujo propósito último está propriamente dirigido com todo o seu aparato só à solução desses problemas denomina-se metafísica; o procedimento desta é de início dogmático, ou seja, assume confiantemente a sua execução sem um exame prévio da capacidade ou incapacidade da razão para um tão grande empreendimento. (KANT, 1980, p. 25)

A razão busca ir além do fenômeno, ela quer se elevar ao ser-em-si, conhecer o Númeno. (Kant não chama de Ser, mas coisa-em-si). A razão sempre nos leva ao metafísico e o grande problema da metafisica é que ele mostra conceitos sem intuições. Mas a grande questão se encontra na necessidade de a razão buscar ir além das suas capacidades, suas condições de possibilidades no processo de conhecimento. Mas sem esse propósito nos diz Kant que os avanços na própria ciência se limitam. É essencial para a razão ir além.

[...] Com efeito, sem ser movida pela mera vaidade da erudição, mas impelida pela sua própria necessidade, a razão humana progride irresistivelmente até perguntas que não podem ser respondidas por nenhum uso da razão na experiência nem por princípios ai tomados emprestados, e assim alguma metafísica sempre existiu e continuará a existir realmente em todos os homens, tão logo a razão se estenda neles até a especulação. (KANT, 1980, p. 25)

A questão para Kant é como surge na razão pura as perguntas que a própria razão humana buscar responder, de maneira necessária, além disso, de maneira que estas questões, levantadas pela razão humana, são tratadas de forma como se estivessem no mundo natural. Tais questões são Deus, a Imortalidade da Alma, e a Liberdade.

Todavia, estes raciocínios, que resultam da própria natureza da razão, são outros tantos sofismas, e é ao estudo desses raciocínios sofísticos que Kant consagra a segunda parte da Dialética transcendental, intitulada " Dos raciocínios dialéticos da razão". Os sofismas que conduzem à ideia de alma, e são chamados paralogismos da razão pura, constituem a Psicologia racional. A ideia de mundo, objeto da Cosmologia racional, inspira os raciocínios contraditórios chamados antinomias da razão pura, os quais são igualmente verdadeiros ou igualmente falsos. E, enfim, a Teologia racional, que trata do ideal da razão pura, ou seja, de Deus, contém os sofismas pelos quais se pretende demonstrar a existência de um Ser supremo.  (PASCAL, 2008, p. 95)





CONCLUSÃO

Com isso fica evidente que Kant não quis mostrar nenhum princípio do Ser, mas sim o princípio do conhecer. (NÓBREGA, 2011, 39) Assim Kant faz uma Teoria do Conhecimento, e não uma metafísica. Ao contrário, Kant de certa forma bloqueia o caminho a metafísica como uma ciência. "O que diferencia os conhecimentos racionais da matemática e da física, dos da metafísica é que aqueles são juízos sintéticos a priori, e estes, juízos analíticos." (PASCAL, 2008, p. 39) A ideia de Imortalidade da alma, a cosmologia e de Deus, são ideias incognoscíveis. Esse fato, da impossibilidade da metafísica como ciência, causou uma ruptura no modo de pensar a filosofia. A metafísica parte de princípios postulados, os quais a razão afirma, mas não conhece. O que podemos conhecer só o pode dentro das categorias, e nada mais, além disso.

REFERÊNCIAS

CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. In: ______.  Immanuel Kant. Tradução de Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Abril Cultura, 1980. v. 1. (Coleção Os pensadores).

NÓBREGA, Francisco Pereira. Compreender Hegel. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

PASCAL, Georges. Compreender Kant. Tradução de Raimundo Vier. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.  História da Filosofia: Filosofia pagã antiga e medieval.Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 1990. v. 1. (História da Filosofia).




SANTOS, Paulo Monteiro. O problema do nada na filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre. 2018. 1 f. Monografia (Bacharelado em Filosofia) - Faculdade Vicentina, Curitiba, 2018.                                                              



[1] Graduando do Curso de Filosofia na Faculdade Vicentina. E-mail: paulus.monterum@gmail.com
[2] Estas ideias estão mais bem expostas no meu artigo “Matéria e Forma” em Aristóteles


domingo, 11 de novembro de 2018

CONFERÊNCIA: MISERICÓRDIA EM TEMPOS DE PÓS-VERDADE - PROF. BORTOLO VALLE 26/10/2018. SALÃO DA FACULDADE VICENTINA – CURITIBA/PR



Qual a condição das histórias do passado para o homem? Antes de respondermos, devemos saber que estas histórias são todas fictícias. Sua condição é nos tirar dessa realidade; nos tirar do mundo. Os mitos e religiões, têm como núcleo, o paradoxo. No fundo os nossos relatos é para responder quem somos, ou responder o que é o homem. Mas Deus não pergunta ao homem o que ele é, ou quem ele é, mas “onde estás”? (Gn. 3,9). A pergunta mais cabal em nossos tempos, não é saber quem somos, mas é saber onde estamos, e como sair do lugar em que estamos.  
Em tempos de pós-verdade não existem mentiras e isso é assustador, já que se os relatos e fake newsfossem mentiras, poderíamos reparar os fatos. A mentira é uma verdade e é feita para não durar. E a verdade que mais nos interessa é a que não dura. Esta verdade deve ser feita para o futuro, pois não podem durar no eterno presente. E mesmo as verdades eternas, devem não durar. O que é o amor hoje? Assim como as verdades, a misericórdia (tema central desta conferência) não foi feita para durar.  
A verdade tornou-se uma mercadoria: Hoje ela é feita para ser comprada nas prateleiras dos supermercados. E se ela é uma mercadoria ela tem seus produtores, pessoas que são pagas para elaborarem verdades. A verdade é icônica: A verdade foi feita para ser olhada pelas pessoas; vista, vislumbrada. Deve ser impactante, só assim ela nos prende a atenção. Esta verdade é delirante: Ela tem uma resposta para cada uma de nossas necessidades.  
Assim surge a pergunta de não nos preocuparmos de sabermos quem somos, mas onde estamos. A sociedade humana quer se situar no espaço-tempoentre um passado e um futuro. Um passado perdido, que não tem volta e um futuro de proposta que nunca chegam. Mas onde fica a misericórdia nessa história? Ela tem um nome que é “cuidado”. Hoje não temos mais cuidado com os outros nem com o mundo. Como vamos entender da misericórdia nesse mundo da falta de comprometimento? De certo modo, a misericórdia também tornou-se uma mercadoria. Ela é icônica e produzida. 
Hoje nós nos amamos virtualmente. Sou capaz de me comover com pessoas morrendo na TV, mas não com os mendigos da rua de casa. E os produtores das verdades sabem disso. Nós temos que pensar e repensar o que significa o “cuidade” (misericórdia). Então, não devemos olhar como um cálculo, mas num sentido de “cuidado”. Pascal afirmava que temos que ter um comprometimento com o outro como em forma de empatiaAtrás de um corpo tem um ser-aí. 
Nos tempos de pós-verdades, nós estamos vendendo o corpo, limitando o conhecimento do outro apenas ao corpo. O homem não é só um corpo, é um ser para o espírito. Hoje não sentimos com as pessoas seus sofrimentos. Para onde vai nos levar esses tempos de pós-verdades sem misericórdia? Se não nos comprometermos com o olhar de misericórdia ao outro, como vamos viver em tempos de pós-verdades? 
                 


Bortolo Valle 
Filósofo

ARTIGO: MATÉRIA E A FORMA EM ARISTÓTELES


RESUMO: Este artigo tem por objetivo dissertar, de forma sintética, sobre o tema da Matéria e Forma na Filosofia de Aristóteles, tendo em vista as implicações que esta teoria põem em discussão, o problema do Ato e Potência, Substância e o Motor Imóvel. Também se buscou, neste artigo, mostrar uma breve demonstração da crítica que Aristóteles faz a teoria do mundo das Ideias de Platão, e de como Aristóteles faz surgir uma nova análise sobre a Metafísica, a tal ponto que está Metafísica, proposta por Aristóteles, mudou de maneira radical o modo como vemos a Matéria e o mundo das Formas.



INTRODUÇÃO

Aristóteles (385 a.C) nasceu em Estagira, na Macedónia. Estagira era uma cidade considerada grega, pois foi fundada pelos gregos de cultura jônica.  Por ser de uma família que tinha tradição na medicina, Aristóteles manifestou interesse também na natureza. Seu pai, Nicômaco, era médico e foi consultou do rei da Macedônia. Nos seus 18 anos, Aristóteles vai para Atenas, onde passa a estudar na academia de Platão. (CHAUÍ, 2000, p.334). 
Platão o influenciou de maneira tal que a marca platônica ficou em sua filosofia, mesmo Aristóteles superando-o em muitos pontos, as influências de Platão e sua característica metafísica acompanharam Aristóteles, e foi o que de mais se discutiu em sua obra até os dias de hoje. Aristóteles morreu em 321 a.C, com a idade de 63 anos. (CHAUÍ, 2000, p. 334). 
Neste pequeno texto trataremos do tema Matéria e Forma em Aristóteles. Sendo esse assunto um conteúdo que corresponde a todo um sistema ontológico, faz-se necessário tratar do tema da Metafísica, com o objetivo apenas de conceituar esses dois elementos, matéria e forma, na filosofia aristotélica.  
Vele lembrar que o termo Metafísica não foi usado por Aristóteles. Esse termo foi usado por um organizador das obras de Aristóteles, Andrônico de Rodes, que no século I catalogou as obras de Aristóteles. Este Andrônico, utilizou o termo metafísica para classificar os textos aristotélicos como aquela ciência que está além das ciências físicas. Aristóteles chamou essas ciências, na verdade, de ciências primeiras. (CHAUÍ, 2000).

1 CRÍTICA A TEORIA DE PLATÃO SOBRE O MUNDO DAS IDEIAS


Antes de iniciarmos, alguns pontos devem ser colocados principalmente pelo fato de a teoria de Aristóteles ser uma crítica a teoria de Platão. Conforme essa crítica Aristóteles constrói toda a sua teoria metafísica. 

Ora, ao dar às Formas um estatuto ontológico forte – elas são o ser – e separá-las num mundo inteligível eterno à parte, Platão impossibilitou que elas pudessem explicar o mundo sensível, pois nada há em comum entre eles. O sensível se reduz a uma aparência degradada ou uma deformação do inteligível e o filósofo é convidado a abandoná-la em lugar de compreendê-lo. Epistemologicamente, a teoria das Ideias é inútil. (CHAUÍ, 2000, p.352)

Sendo o mundo sensível um mundo apenas de sombras, não se pode conhecer nem analisar tal mundo. Dessa forma realmente é inútil, pois sendo as Ideias realidades em si mesmo, não servem para conhecermos a realidade em nosso mundo. Para Aristóteles as Formas não são realidades em si mesmo, mas são " [...] a unidade inteligível da multiplicidade sensível [...]" (CHAUÍ, 2000, p.352).  
Aristóteles critica vários pontos em Platão. Primeiro é a duplicação desnecessária da realidade. Platão duplica a realidade em dois mundos e com isso não consegue resolver a aporia que é apresentada no mundo sensível, já que essas aporias se apresentam no mundo das Ideias. Um exemplo é a Ideia de identidade; multiplicidade e de diferença. Aporias suscitadas em Heráclito e Parmênides. Ou seja, as antinomias que se apresentam no mundo sensível, também se apresentam no mundo inteligível. (CHAUÍ, 2000, p.352). 
Segundo ponto: Para Aristóteles a teoria da participação de Platão não faz sentido já que "[...] para dizermos que uma coisa particular é o que é porque participa de uma ideia com a qual tem semelhança da cópia com o modelo, será preciso encontrar uma terceira ideia, [...] mas, para dizer que uma ideia participa de uma outra, precisamos de uma quarta ideia que sirva de modelo as outras duas e assim indefinidamente. [...]" (CHAUÍ, 2000, p.352).  
O terceiro problema que Aristóteles vê em Platão é: Se há uma ideia para cada coisa no mundo então deve-se haver também uma ideia de relação, mas uma relação não possui ideia de nada porque não é uma coisa no mundo. "[...] Portanto, não pode haver ideia de relação. [...]" (CHAUÍ, 2000, p.353). E sem a ideia de relação como justificar a relação das coisas no mundo? 
No quarto problema, Aristóteles fala que se há a ideia do positivo, do belo e etc, deve-se haver também a ideia do mal, do negativo. Se a ideia de beleza, deve-se haver a ideia da não-beleza. Deve-se haver ideia não apenas para o negativo, mas para os modos das coisas, assim essa concepção platônica acaba indo para um infinito mundo de ideias, o que para Aristóteles é absurdo. (CHAUÍ, 2000, p.353).  
No quinto problema, apontado por Aristóteles, a teoria de Platão não diz como é a gêneses das coisas. As Ideias para Platão são eternas e o Demiurgo apenas modela as coisas, que são prontas e acabadas. A teoria de Platão não explica como o mundo sensível da origem as coisas. Por fim, no sexto problema, as Ideias impedem que o mundo sensível tenha inteligibilidade, assim o mundo sensível é irracional e não pode ser conhecido. " [...] As ideias roubam o sentido do mundo, em vez de dar-lhes sentido." (CHAUÍ, 2000, p.354). 
Concluindo essa crítica as teorias platônicas, Aristóteles vai dizer que a "forma (o eídos[...] determina a identidade de uma coisa, determina o que ela é em sua essência, e se encontra na própria coisa, cabendo ao pensamento separar intelectualmente a forma (universal) e a coisa (singular), isto é, separar a forma da materialidade da coisa." (CHAUÍ, 2000, p.356).

2 A CONCEPÇÃO DE MATÉRIA E FORMA EM ARISTÓTELES
  
Não existe para Aristóteles um mundo aparte de ideias. A ideia está na própria coisa, unida entre forma e matéria, onde uma dá sustento à existência da outra, cabendo ao pensamento fazer uma abstração e separar as duas. Pelo pensamento é que podemos conhecer o universal, aquilo que é necessário e que está na coisa sensível e não em um mundo fora da materialidade.  Passamos agora a analisar como chegamos a ideia da forma e da matéria começando pela teoria das Categorias de Aristóteles (CHAUÍ, 2000, p.357).
Aristóteles afirma que o ser se diz de várias maneiras (CHAUÍ, 2000, p.358), mais propriamente em 10 categorias: 1) Substância, ou essência; 2) Quantidade; 3) Qualidade; 4) Relação; 5) Lugar; 6) Tempo; 7) Posição; 8) Posse; 9) Ação; 10) Paixão. Essas categorias são os modos do ser e servem para que o pensamento possa conhecer este ser e exprimi-lo. 

Do ponto de vista gramatical, as categorias correspondem ao substantivo, adjetivo, advérbio e verbo. Essa unidade entre gramática e lógica indica não só a unidade entre linguagem e pensamento, mas também a unidade entre dizer, pensar e ser. [...] (CHAUÍ, 2000, p.360)

Destas categorias a mais importante é a da substância, pois em ralação a ela as outras categorias são apenas predicadas ou atributos da substância. A substância é um substrato que suporta as outras categorias. Por isso se diz que as outras categorias são os acidentes da substância. (CHAUÍ, 2000, p.361). É na substância onde se há o conjunto: matéria, forma e individualidade.  
O que vem a ser a Matéria para Aristóteles? A matéria é a substancia como suporte, substrato. Sujeito que pode se conceber com propriedades, "[...] justamente porque em si mesmo e por si mesmo ela não possui nenhuma. [...]"  (CHAUÍ, 2000, p. 392). O que vem a ser a Forma? A forma é quem vai determinar, pois ela é a substancia como essência. É ela quem dá atributos e propriedades a matéria.  
Explicaremos melhor com as palavras de Nunes quando este autor afirma que matéria é possibilidade dê, e a forma o ato: (NUNES, 2009, p. 27). 

[...] Simples potencia ou possibilidade, a matéria, cujo sentido metafísico tem por base a conotação artesanal de hyle, necessita de uma forma (morphe), que a delimite e determine. Longe estamos, porém, do universo platônico, em que a forma, como ideia, subsiste separada das coisas, num mundo inteligível. Para Aristóteles, ela não é essência universal, mas princípio ativo, verdadeiro ato que determina a matéria ou potência, atualiza as aptidões nela esboçadas e produz um ser perfeito, substancial. A forma é causa intrínseca do nascimento, crescimento e conservação dos serres naturais. Ela é, para empregarmos a palavra consagrada, que significa princípio originário e organizador, enteléquia. (NUNES, 2009, p. 27) 

Essa explicação nos leva a dizer que a matéria tem em si a potência, e a forma a do ato. A Matéria é atividade que possibilita algo. A Forma a, atualiza, a “coisa”, (matéria). A palavra Matéria se origina da palavra madeira “[...] hyle, em grego. [...]" (NUNES, 2009, p. 27). Acreditamos, e essa é nossa opinião, que aquilo que reveste a matéria precisa de algo que determine a possibilidade da matéria se atualizar, e atualizar aqui significar mudar. A matéria precisa da Forma.
 A Forma é (e partimos de Nunes (2009) nesta nossa afirmação) um principio ativo na Matéria. É algo que da condição a possibilidade da Matéria se atualizar. A grosso modo, a Forma é um principio originador que faz a matéria se tomar em “forma”[1]. E aqui está um fundamento básico: A Matéria tem que ter uma “forma”, pois sem “forma” ela é indeterminada. Por isso, a Matéria deve ser determinada pela Forma, se não, fica-se impossível pensar a Matéria, porque sem “forma” não há nada para se pensar.  Por essa razão Nunes (2009) afirma que é um principio originário e organizar. É enteléquia, pensável.
Podemos então dizer que a Forma, por exemplo no artista, é uma ideia que este modela e atualizar na Matéria que ele trabalha (NUNES, 2009, p.27). Assim, a Natureza também é uma matéria atualizada por Deus, um ato puro, Forma das formas. Assim, chegamos a ideia de Aristóteles no Motor Imóvel. Pelo Motor Imóvel, Aristóteles vai justificar a causa do movimento. Uma Causa final. (NUNES, 2009, p. 27). Neste ponto, se diz que a teoria aristotélica é determinista.

CONCLUSÃO

A teoria de Aristóteles sobre Matéria e Forma é apenas uma parte de toda uma metafísica que, de certa forma, resolveu muitas lacunas que antes se via na teoria platônica. A bem da verdade, Aristóteles modificou de maneira radical as ideias de Platão, unindo a Forma (Ideias) a Matéria (Sensivel), e eliminando o conceito de Sombras dito por Platão. Assim pela Matéria como Potência e a Forma como Ato, Aristóteles garante o movimento no mundo e os princípios lógicos da razão, unindo Heráclito a Parmênides.   

REFERENCIAS






CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

NUNES, Benedito. Introdução a Filosofia da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2009


PAULO MONTEIRO DOS SANTOS:
Graduado em Filosofia - FAVI; Graduado em Letras- UNEB;
Email: paulus.monterum@gmail.com



[1] Essa palavra forma, com aspas, que dizer não ao conceito de forma em Aristóteles, mas ao mudo corriqueiro.