segunda-feira, 28 de julho de 2014

Artigo: CONFRONTO DE CULTURA; A CULTURA INDÍGENA E A CULTURA OCIDENTAL



DAMARIS PASSOS DA SILVA[1]
GILVANETE FERREIRA DE BRITO[2]
PAULO MONTEIRO DOS SANTOS[3]


1 INTRODUÇÃO

            Em mil e quinhentos os portugueses desbravaram no Brasil, e de lá para cá, vemos que aquilo que se deu com os índios em nosso território, (não só no território brasileiro, mas em quase todo o território das Américas, desde Canadá até no Brasil) foi um confronto de cultura que terminou com o extermínio das tradições e da identidade dos povos indígenas.
            Este confronto não foi apenas uma guerra de cultura, mas também uma guerra no sentido da própria matança do índio, que nada mais era que as formas de como os colonizadores acharam para destruir a cultura dos povos nativos.
            Sua língua, suas tradições, sua forma de ser, sua religião, em fim uma, infinidade de estratégias para corroer os costumes dos nativos e tomar-lhes os seus bens mais significativos que era o território e as riquezas de sua terra.
            Neste pequeno artigo iremos tratar de maneira simplória como se evidencia este confronto de cultura entre o colonizador e o colonizado; o porquê de o índio ter se encantado com a cultura ocidental, e logo em seguida o confronto entre índio e colonizador.
            É importante falarmos que os povos que aqui habitavam não constituíam uma nação como entendemos aquilo que se denomina por nação, ou seja, povos de uma mesma identidade, costumes e cultura. Os nativos nas Américas eram formados por grupos étnicos bem diferenciados. No dizer de Darcy Ribeiro (1995)

[...] Não era, obviamente, uma nação, porque eles não se sabiam tantos nem tão dominadores. Eram, tão-só, uma miríade de povos tribais, falando línguas do mesmo tronco, dialetos de uma mesma língua, cada um dos quais, ao crescer, se bipartia, fazendo dois povos que começavam a se diferenciar e logo se desconheciam e se hostilizavam. (p. 29)

            Sendo assim podemos dizer que os silvícolas, na época em questão, tinham suas diferenças entre si. O espanhol e o português se aproveitaram disso para que se facilitasse o poder de dominação e imposição da cultura ocidental, no caso a do colonizador.
            Para esta analise usaremos o texto de Jorge Luis Borges (1999), História do Guerreiro e da Cativa, e A carta de Nicolas Durand de Villegagnon a João Calvino, texto retirado da obra de Jean de Léry (2007), Viagem a Terra do Brasil, entre outros teóricos que darão suporto para está analise.
            Dissertaremos o nosso tema em dois capítulos, o primeiro conta-se o encontro das duas culturas, a do europeu e a do índio. No segundo capítulo esboçaremos o confronto destas culturas tão opostas ou “as opostas visões” como assim reflete Darcy Ribeiro (1995, p.43). Esperamos com este artigo trazem a luz novas ideias ao campo da cultura indígena e brasileira como um todo.

2 O ENCONTRO ENTRE O ÍNDIO E O EUROPEU

            A princípio este encontro entre esses dois povos, tão diferentes em seus costumes, foi de caráter amigável, pelo menos no que se refere entre o português e os índios no Brasil. Como observa Darcy Ribeiro (1995, p. 42): “Provavelmente seriam pessoas generosas, achavam os índios.”
            Os europeus eram qualquer coisa de fantástico para os nativos, seres vindos de terras sagradas.

Os índios perceberam a chegada do europeu como um acontecimento espantoso, só assimilável em sua visão mítica do mundo. Seriam gente de seu deus sol, o criador – Maíra -, que vinha milagrosamente sobre as ondas do mar grosso. Não havia como interpretar seus desígnios, tanto podiam ser ferozes como pacíficos, espoliadores ou dadores. (RIBEIRO, 1995, p. 42)
  
            Isso ficou evidente para aquela gente que nunca na vida tinham visto pessoas tão diferentes de sua cultura. Está magnífica visão diante do novo fez com que os nativos se encantassem pela aquela gente.
            Assim também sucedeu com o jovem Droctulft que segundo Borges (1999, p. 39) “ [...] foi um guerreiro lombardo que, no assédio de Ravena, abandonou os seus e morreu defendendo a cidade que antes havia atacado.”  Podemos assimilar a história do jovem Droctulft com as dos povos indígenas? Cremos que sim.
            Lembramos que este Droctulft era um bárbaro, e os bárbaros estavam querendo derrubar o império romano, mas este jovem guerreiro resolve mudar de lado e lutar a favor de Roma contra os invasores do império.
            Mas o que se deu para que Droctulft mudasse de ideia? Quais os mecanismo que o fizeram recuar para a outra face da moeda? Pois diz-nos Borges (1999) sobre este Droctulft:
 
[...] Porem mais congruente é imaginá-lo devoto da Terra, e de Hertha, cujo ídolo coberto ia cabana em cabana num carro puxado por vacas, ou dos deuses de guerra e do trono, que eram toscas figuras de madeira, envoltas em roupas tecida e recoberta de moedas e argolas. Vinha das selvas inextricáveis do javali e do urso; era branco, corajoso, inocente, cruel, leal ao seu capitão e à sua tribo, não ao universo. [...] (BORGES, 1999, p. 40)

            Se notarmos nesta fala, iremos ver Droctulft como um homem ligado a sua terra, sua gente, sua cultura. Tem suas convicções e certeza delas. Está exposto com clareza que é um homem que vive alem de sua cultura, vive para sua terra. Mas acontece aquilo que se pode acontecer a qualquer um quando se defronta com outra cultura, um choque de costumes entre dois universos diferentes, que pode levar ao confronto, ou ao encantamento.

[...] As guerras o trazem a Ravena e aí vê algo que já mais viu, ou que não viu com plenitude. Vê o dia, os ciprestes e o mármore. Vê um conjunto que é múltiplo sem desordem, vê uma cidade, um organismo feito de estatuas, de templo, de jardins, de habitações, de grades, de jarrões, de capitéis, de espaços regulares e abertos. Nenhuma destas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorássemos, mas cujo desenho fosse adivinhada uma inteligência imortal. (BORGES, 1999, p. 40)

            Droctulft está encantado, enfeitiçado a contra luz. Deste confronto o que ficou foi um guerreiro conquistado, enfeitiçado pelas coisas fantásticas da outra cultura. Temos o encontro do nativo com o invasor que vem armado com algo de novo e perigoso.

3 O CONFRONTO EM AS CULTURAS

            Sabe-se que o confronto entre duas cultura pode ser muito perigoso porque gera uma serie de fatores ruins para os dois lados em luta, principalmente mortes e guerras. Uma destas batalhas foi com a língua. “O emprego da língua geral[4] foi progressivamente diminuindo nas comunidades urbanas do litoral, para ir-se concentrando nos ambientes rurais do interior.” (NETO, 1976, p. 600)           
            Mesmo a língua indígena sendo mais frequentemente falada não conseguiu impor-se a língua estrangeira, e porque isso? Se o nativo está encantado com aquele povo que aqui apareceu, é bem verdade que tudo naquela gente era lindo, inclusive a língua que serviu como status social. Assim diz-nos Serafim da Silva Neto (1976):

Os portugueses falavam, é certo, a língua geral, a fim de entrar em contato com os índios: mas certamente o faziam considerando a sua própria língua como superior. Para eles o tupi ou tupi-guarani não passava de uma rústica língua de bugres. (NETO, 1976, p. 600)

            Assim podemos dizer que o nativo venerava os costumes do outro, como falamos antes, e a cultura do estrangeiro começava seu processo de dominação.

Nenhuma destas obras (eu sei) o impressiona por ser bela; tocam-no como agora nos tocaria uma maquinaria complexa, cujo fim ignorássemos, mas em cujo desenho fosse adivinhada uma inteligência imortal. (BORGES, 1999, p. 40)

            Pelo contrario, os colonizadores achavam que sua cultura era superior a dos índios e se apresentavam como deuses para aquela gente deslumbrada com aqueles costumes. Para entender isso trazemos o filósofo Nietzsche (2007) e sua reflexão sobre essa imposição cultural.

Nos tempos primitivos, tudo dependia, portanto, dos costumes, e aquele que quisesse se elevar acima dos costumes devia tornar-se legislador, curandeiro e algo como um semi-deus: isto é, devia criar costumes. (NIETZSCHE, 2007, p. 23).


            O colonizador não queria criar costumes, mas com certeza queria elevar-se sobre os costumes do outro, e conseguiu de certa formar, é tanto que destruiu a maioria das tribos e a cultura dos poucos costumes indígenas que sobraram.
            Como vemos nesta citação do filósofo alemão, o colonizador se elevava a cima dos costumes dos nativos, e queria criar novos costumes ou impo-lhes os seus.        E como os colonizadores viram os índios? Segundo Nicolas Durand em carta a um dos formadores da Reforma Protestante, João Calvino (LÉRY, 2007):

O país era totalmente deserto e inculto. Não havia nem casa nem teto nem quaisquer acomodações de campanha. Ao contrario, havia gente arisca e selvagem, sem nenhuma cortesia nem humanidade, muito diferente de nós em seus costumes e instrução; sem religião, nem conhecimento algum de honestidade ou de virtude, do justo, e do injusto, a ponto de vir à mente a ideia de termos caído entre animais com figura de homens. ( VILLEGAGNON; apud LÉRY, 2007)

            Vemos aqui uma discrição totalmente preconceituosa do índio gentílico feita pelo desbravador, mas é justamente isso que o colonizador pensava do índio em nosso território, ou seja, a cultura europeia considerava a cultura americana muito inferior a sua, nisso começou um confronto que resultou em mortes e dominação. 
            Assim temos a cativa de Jorge Luis Borges (1999) como uma dominada dentro do seu próprio território que era as Américas:

[...] Fazia quinze anos que não falava o idioma natal e não era fácil recuperá-lo. Disse que era de Yorkshire, que seus país emigraram para Buenos Aires, que os perdera num ataque, que os índios a levaram e que agora era mulher de um capitãozinho a quem já tinha dado dois filhos e que era muito valente. Foi dizendo isso num inglês rústico, misturado com araucano ou com pampa, e por trás do relato se vislumbrava uma vida cruel [...]. (BORGES, 1999, p. 42)

            O texto de Borges (1999) é enfático em sua significação sobre a dominação de uma cultura para com a outra. “Foi dizendo isso num inglês rústico, misturado com araucano ou com pampa, e por trás do relato se vislumbrava uma vida cruel”. (BORGES, 1999, p. 42) A que ponto está dominação teve de chegar, escravizando mulheres, matando homens e crianças de formar desleal e covarde, é isso que a cativa de Borges (1999) nós informa.

Mil e trezentos anos e o mar punha-se entre o destino da cativa e o destino de Droctulft. Os dois, agora, são igualmente irrecuperáveis. A figura do bárbaro que abraça a causa de Ravena, a figura da mulher europeia que se decide pelo deserto podem parecer antagônicas. No entanto, um ímpeto secreto arrebatou os dois, um ímpeto mais fundo que a razão, e os dois acataram este ímpeto que não souberam explicar. [...] (BORGES, 1999, p. 42)

            E assim o mestre Borges (1999) encerra seu conto explicado-nos esta imposição a que a cultura foi estabelecida, tanto em Droctulft como na Cativa. Na cativa de forma cruel e perturbadora.
            Assim para o índio a luta da cultura terminou em sangue e crueldade para com seu povo, mas para o europeu coube comemorar sua vitória, mas como diria o mestre Machado de Assis (1994) em seu celebre livro Quincas Borba, de fora irônica: “Ao vencedor, as batatas.” (ASSIS, 1994, p. 236)

CONCLUSÃO

            De fato não podemos dizer que uma cultura venceu a outra e que está terá uma vida eterna, já que a cada dia a humanidade evolui e novas coisas são reveladas. Assim o que era antes pode voltar a vir a ser novamente, a História nos prova isso a cada dia.
            O confronto entre a cultura indígena e a cultura ocidental está acontecendo ainda, e nesta guerra o índio vem perdendo terreno, mas enquanto existir a cultura sendo exercida em qualquer parte, ela ainda está lá e não foi vencida, porque o bom guerreiro nunca pode fogir a guerra.

REFERÊNCIAS

ASSIS, Machado. Quincas Borba. – 2ª. Ed – São Paulo: FTD, 1994.

BORGES, Jorge Luis. Obras completas de Jorge Luis Borges. São Paulo: Globo, 1999.

LÉRY, Jean. Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 2007.

NETO, Serafim da Silva. Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 3ª Ed. – Rio de Janeiro: Presença; Brasilia, INI, 1976.

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora. São Paulo: Escala, 2007.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.





[1] Graduando do Curso de Letras na Universidade do Estado da Bahia- DCHT- Campus XXII, 8º Semestre.
[2] Graduando do Curso de Letras na Universidade do Estado da Bahia- DCHT- Campus XXII, 8º Semestre.
[3] Graduando do Curso de Letras na Universidade do Estado da Bahia- DCHT- Campus XXII, 8º Semestre.

[4] A língua geral a que o autor aborda é o tupi-guarani. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Resenha: ANALISE DA OBRA DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA (A BAGACEIRA) FEITA POR SILVANO SANTIAGO NO LIVRO UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS

Paulo Monteiro dos Santos[1]








REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SANTIAGO, Silvano: A bagaceira: fábula moralizante. In:____. Uma literatura nos trópicos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.



ANALISE DA OBRA DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA (A BAGACEIRA) FEITA POR SILVANO SANTIAGO NO LIVRO UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS

Ao aborda a obra de José Américo de Almeida, A bagaceira, Silvano Santiago explora as varias vertentes de como o leitor pode ver o discurso que se é entendido dentro do texto: “(...) janelas por onde, ao mesmo tempo, olhar para fora de dentro e para dentro de fora do texto.” (SANTIAGO, 2000). E explora, no exemplo que extrai do livro, sobre Dagoberto (personagem de A bagaceira) como nós, leitores, olhamos esta dualidade, “este meio termo da janela”, no caso, daquele que lê a obra: “janela onde (se) olha o texto.” (p. 104)
Silvano evoca na obra A bagaceira, a importância das reticências, que no livro é frequentemente utilizado pelo autor. E de como estas reticências (que na obra mostra omissão de fala ou de pensamento) provoca no leitor dúvidas e leituras a parte, dando ao leitor a oportunidade de participar da obra e criar sua própria leitura diante do personagem. Neste caso será o leitor, que em dúvida, “sem saber o que exatamente o personagem disse,” (p. 104) faz com que o leitor participe da narrativa, juntamente com o narrador, criando um universo seu para com a obra.
Outro aspecto analisado por Silvano é a necessidade de o narrador querer explicitar no inicio da obra que sua narrativa se desenlaça em torno de mentira. Mas está mentira, “outorgou-se a si o direito de dizer a verdade dissimulada” (p. 107).
Por outro lado, vestindo desde o inicio a máscara da mentira, a ficção (como o louco nos textos medievais) outorgou-se a si o direito de dizer a verdade dissimulada, sem que sofra choques absurdos ou repressivos- diz a verdade da mentira, a verdade pela mentira, a verdade dentro da mentira. (SANTIAGO, 2000, p.107)

Silvano explora outros autores como Graciliano Ramos, na obra Caetés e São Bernardo, e José Lins do Rego em Menino de Engenho, afirmando que tais autores tentam mostra em suas obras a verdade diante da ficção, coisa que no autor de A bagaceira, o narrador tenta mostrar o contrário, ou seja, ela, sua narrativa, gira em torno da mentira. Afirma Silvano que: “No caso de A Bagaceira, faz-se ficção de propósito, pois é a maneira mais persuasiva de dizer a verdade.” (p. 111).
O autor retoma também os contrastes da trama amorosa que envolver Lúcio, Dagoberto e Soledade, personagens principais do romance. Recorda o autor que Lúcio é filho de Dagoberto, e este mesmo Lúcio, apaixonado por Soledade, vê-la casada com seu próprio pai.
Outro personagem intrínseco na trama de A bagaceira é Pirunga, irmã de criação de Soledade, primos em verdade. Este Pirunga é apaixonado por Soledade. Então, aborda o autor, colocando que “Soledade é a virgem cobiçada pelo esposo, pelo filho, e pelo irmão” (p. 117).
Esta frase de Silvano é de certa forma um trocadilho hiperbólico, que ele usa na tentativa de demonstrar a catarse da trama, pois sabemos que Lucio não era de fato filho de Soledade, muito menos Pirunga era de fato irmão. Porém a trama descrita por José Américo é tão complexa e envolvente que o leitor se vê emaranhado com a obra.
Observa-se também na analise de Silvano, uma distinção entre a natureza, que esta na essência de Lucio, e sua visão perante a qualidade desta mesma natureza. Mais ainda a sua visão da natureza humana. Também da natureza como próprio elemento físico na formação e confronto com o próprio ser do homem, ou sua própria natureza, natureza psíquica.
Para concluir, é certo dizer que o estudo de Silvano Santiago é profundamente marcado por uma analise psicológica da obra A bagaceira, tanto quando fala sobre a trama do personagem, como as tramas que acontece na mente do leitor, ao ler as reticências que se encontram no texto. Reticências que esconde uma verdade ao leitor, obrigando-o há construir sua própria realidade diante de um texto que é pura ficção.

REFERÊNCIA

SANTIAGO, Silvano. Uma literatura nos trópicos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.







[1] Graduando do Curso de letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia- (UNEB) Campus XXII.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Resenha: AVALIAÇÃO MEDIADORA: UMA PRÁTICA EM CONSTRUÇÃO DA PRÉ-ESCOLA À UNIVERSIDADE. de Jussara Hoffmann


Amanda Nunes1
Ana Carina Reis2
Damaris Passos3
Gilvanete Brito4
Lea Tatiana5
Paulo Monteiro6





CREDENCIAIS DO AUTOR

Jussara Hoffmann é Graduada em Letras pela UFRGS em 1974; Mestre em Avaliação Educacional pela UFRJ em 1981; Professora e Coordenadora Pedagógica de Escolas Particulares e de Escolas Estaduais de 1968 a 1980; Assessora de Delegacia de Educação do RS de 1981 a 1986; Curso de Extensão em Supervisão Educacional pela UFRGS em 1984. Professora da PUC-RS - Curso de Metodologia do Ensino Superior - de 1982 a 1986.


HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade – Porto Alegre: Editora Mediação, 1993. 20ª Edição revista, 2003.


RESUMO: O texto de Jussara Hoffmann, “Avaliação Mediadora: Uma prática em construção da pré-escola à universidade”, toma por base a avaliação como uma atividade que faz com que o aluno seja instigado a desenvolver seu processo cognitivo, mas o que a maioria das escolas, juntamente com seus professores perpassam é, o processo avaliativo como um sistema “classificatório de ensino de qualidade”, ( HOFFMANN, p. 12.)


O texto de Jussara Hoffmann, “Avaliação Mediadora: Uma prática em construção da pré-escola à universidade”, toma por base a avaliação como uma atividade que faz com que o aluno seja instigado a desenvolver seu processo cognitivo, mas o que a maioria das escolas, juntamente com seus professores perpassam é o processo avaliativo como um sistema “classificatório de ensino de qualidade”, ( HOFFMANN, p. 12.), ou seja, a avaliação neste caso vai dizer se determinada escola é uma instituição que tem melhor índice de desenvolvimento por parte dos alunos. A autora argumenta que este tipo de prática acaba dificultando o alunado, por quê tal metodologia torna-se um fator excludente que qualifica e desqualifica o aluno.

A sociedade argumenta, muita das vezes, que a avaliação como processo não classificatória desqualifica o ensino, por isso ainda é visível a busca de muitas famílias a escolas conservadoras, como se este fator revelasse a competência dos alunos, ao contrário a esta idéia, segundo a autora, “observamos, com freqüência, historias contrárias de maus alunos que se tornam excelentes profissionais. Ou o inverso, alunos nota 10 em cursos superiores que realizam estágios profissionais medíocres.” (HOFFMANN, p. 23). Ai se percebe que não é a avaliação como um processo classificatório que vai dizer se o aluno tem ou não tem capacidade de se desenvolver no meio profissional.

A autora também aborda em seu livro a questão do professor, sujeito mediador do processo avaliativo, e mostra que muita das vezes o professor não está preparado, como fora dito antes. Ainda, é claro, entende a avaliação na sua forma de qualificar e não de avaliar a aprendizagem do alunado. Ter notas altas não quer dizer que o aluno aprendeu o assunto. A autora diz que o aluno entende a escola fora do seu meio social e não veiculado a ele. “Escola é escola, para ele a vida é diferente.” (HOFFMANN, p. 26). Isso mostra que a pesquisa feita pela autora mostra a escola não como a mediadora do conhecimento, mas sim cumpridora da fusão de passar o conhecimento, desconsiderando a aprendizagem do estudante. A escola toma por base a ensinar, mas sem se preocupar com a realidade social do aluno. “ O que revela a concepção de escola para a memorização de fatos que não adquirem significado algum ao longo de sua vida, fatos transmitidos, memorizados, esquecidos.” Hoffmann diz ainda que a avaliação deve ser passada visando a realidade do aluno. Deve-se haver uma preocupação entre a escola no ser psíquico do estudante.

Hoffmann no livro destaca uma fala dita por uma aluna: “ Quanto mais eu vou a escola, mais eu estudo, quanto mais eu estudo, mais eu aprendo, quanto mais eu aprendo, mais eu esqueço.” (HOFFMANN, p. 26). Portanto, fica claro que a metodologia usada na educação desfavorece os alunos no sentido de produzir o conhecimento, visando a idéia de arrancar o conhecimento do aluno custe o que custar . O que mais poderia, como exemplifica bem a autora, era haver um dialogo entre escola e família sobre o adquire conhecimento e não introduzi-lo no aluno.

Em uma parte do livro a autora destaca o seguinte título: “ As charadas da avaliação”, e discerne que as atividades avaliativas são passadas em sala de aula de uma forma que não condiz com a realidade social dos estudantes, formando-se assim, na cabeça dos alunos, verdadeiras charadas. Destaca-se aqui um exemplo relevante da autora:
“Uma pessoa mora no 18º andar de um prédio de apartamento. Todos os dias desce pelo elevador para ir ao seu local de trabalho. Ao final do expediente, retornando para casa, vai pelo elevador até o 13º andar e sobe os demais andares pela escada. Isso se repete todos os dias. Você saberia dizer por quê?” ( HOFFMANN, p. 29)

A resposta da autora a questão apresentada é que “a pessoa é tão baixinha que só alcança o 13º andar” (HOFFMANN, p. 29). Os professores pesquisados deram varias respostas, isso se evidencia pelo o fato de em um processo avaliativo as questões introduzidas ao sujeito que vai ser avaliado está submetida a varias interpretações e inferências. No aluno isso ainda é mais visível porque ele relaciona as questões escolares com seu meio de convivência. Como tais questões, e isso se argumentou aqui antes, não condizem com a realidade, há um certo confronto na pessoa do estudante em relação a escola e a aprendizagem.

Aqui se faz a mesma pergunta prefaciada pela autora, “por que o aluno não aprende?” (HOFFMANN, p. 31). Não seria pelo o motivo de que não há uma preocupação da escola em relação ao sujeito do aluno, ou seja, a escola quer formar o estudante para a sociedade, mas esquece que este ser já dispõe de uma formação. Como esclarece bem a autora: “ O aluno constrói o seu conhecimento na interação com o meio em que vive. Portanto, depende das condições desse meio, da vivência de objetos e situações.”(HOFFMANN, p. 41). Hoffmann disserta que os professores, mais ainda a escola, deveria preocupar-se mais com o ser do aluno. Como este aluno está desenvolvendo sua aprendizagem entre escola e família? As avaliações deveriam frisar mais a realidade social do aluno, e o professor deveria voltar sua atenção para uma avaliação que valorizasse o ser social do aluno, fato que na escolas tradicionalista se introduz como avaliação classificatória, esquecendo totalmente das percepções empíricas e cognitivas do estudante.

Jussara Hoffmann apresenta um livro elaborado sobre a ótica da teoria e da prática. Mesmo que pareça uma utopia perguntar-se como fazer com que os alunos aprendam em um pais igual ao Brasil onde há tantos contrastes sociais, se deve acima de tudo, preocupar-se em mudar tal realidade. Como? A resposta é dada pela autora que descrevendo o significado da avaliação mediadora diz: “ Presta muita atenção na criança, no jovem, no eu. Eu diria “pegar no pé” desse aluno mesmo, instituindo em conhecê-lo melhor, em entender suas falas, seus argumentos, teimando em conversar com ele em todos os momentos, ouvindo todas as suas perguntas, fazendo novas e desafiadoras questões, (...). Neste sentido, então, teremos perseguido uma escola de qualidade para todas as crianças e jovens deste país.” (HOFFMANN, p. 28).

A autora aborda a questão da escola como um agente social e a avaliação com uma parte integrante na formação do ser social. Para isso é necessário que a sociedade compreenda que os processos avaliativos tende a serem mediadores e não classificatórios, por que é de responsabilidade social o desenvolvimento da educação. O filosofo Anísio Teixeira afirma em seu livro “Introdução a Filosofia da Educação” que: “Se há crise do "espírito", como hoje se diz, se os valores humanos, na sua perpétua transformação, conquistam novas formas e velhas ilusões se vão desfazendo em troca de valores realistas e ásperos, - é que as escolas estão a falhar na sua finalidade espiritual…e urge reformá-las.” (TEIXEIRA, p. 01).

Muitas vezes, o professor investe suficientemente na dimensão cognitiva do desenvolvimento e não dedica atenção à dimensão afetiva. Outras vezes, faz o inverso: cuida da criança com carinho e atenção, mas sem planejar adequadamente como vai ajudá-la a progredir na aprendizagem para alcançar as metas que devem ser atingidas do ponto de vista cognitivo. Assim, é proposto que cada professor, ao planejar as situações didáticas, reflita sobre os estudantes, considerando o desenvolvimento integral, contemplando as características culturais dos grupos a que pertencem e as características individuais, tanto no que se refere aos modos como interagem na escola, quanto às bagagens de saberes de que dispõem. É nessa linha de pensamento que Silva (2003, p.10) aponta “que o espaço educativo se transforma em ambiente de superação de desafios pedagógicos que dinamiza e dá significado a aprendizagem, que passa a ser compreendida como construção de conhecimentos e desenvolvimento de competências da formação cidadã.” É preciso que os professores reconheçam a necessidade de avaliar com diferentes finalidades: conhecer e acompanhar o seu desenvolvimento; conhecer as dificuldades e planejar atividades que os ajudem a superá-las; saber se as estratégias de ensino estão sendo eficientes e modificá-las quando necessário. Diferentemente do que muitos professores vivenciaram como estudantes ou em seu processo de formação docente, é preciso que, em suas práticas de ensino, elaborem diferentes estratégias e oportunidades de aprendizagem e avaliem se estão sendo adequadas. Assim, não apenas o estudante é avaliado, mas o trabalho do professor e a escola.

A concepção de avaliação perpassa a lógica de um processo de organização de ensino, relacionado com a aprendizagem do aluno e com a sociedade. A partir disso, é possível realizar os questionamentos: para que avaliar? O que avaliar? Considera-se que, ao avaliar o aluno, o professor avalia sua própria prática. Para o grupo de estudos, a avaliação serve para reorientar a prática pedagógica, ou seja, como Luckesi (1995) propõe, “verificar as falhas, compreender as causas e propor soluções, para mudar a situação que dificulta o êxito da ação educativa.” Quanto à forma de avaliar, avalia-se o todo e as mudanças de comportamentos gerados no aluno, pois se avalia para concretizar o processo de educação, como ato humano, intelectual, cientifico e sistemático. Não se pode pretender que o aluno esteja pronto ao final de cada bimestre ou ano letivo, pois como ser em construção há muito que desenvolver no processo ensino-aprendizagem. Por isso, é preciso estabelecer um diálogo constante com os estudantes. Assim, a avaliação deve constituir prática contínua e não apenas do final de um período. Como tal, exige muitas tarefas, pelas quais o aluno possa se expressar de várias formas, facilitando o ato de avaliação. Nesta direção, avaliar significa identificar as necessidades dos alunos e ir à busca de soluções para sanar essas necessidades. Neste contexto, a avaliação passa a ser diagnóstica e inclusiva, porque concebe o aluno como ser em desenvolvimento contínuo. Deve-se ressaltar a relevância da viabilização do projeto politico-pedagógico, pois é ele que vai subsidiar um processo de avaliação comprometido com o desenvolvimento. Destaca-se também como fator indispensável, a metodologia aplicada pelo docente, que deve instigar o aluno a fazer uso do conhecimento adquirido. Portanto, faz-se necessário definir um perfil de saída de cada etapa de ensino e assegurar esforços para compreender os processos de construção de conhecimentos das crianças e adolescentes. Essa complexa tarefa pressupõe uma atitude permanente de observação e registro. Se o estudante e sua família sabem aonde a escola quer chegar, se estão envolvidos no dia a dia de que são os principais beneficiários, poderão participar com mais investimento e autonomia na busca do sucesso nessa empreitada que é o aprender.

As escolas devem, e já se vê no horizonte, repensar seus valores como transformadoras de conhecimentos, por já o aluno dispor de uma relevada experiência, assim martela Hoffmann. A escola não deve só querer formar cidadãos porque o cidadão ali já está, mesmo fora da escola, em processo de formação. Buscar adaptar-se a realidade do aluno e remetê-lo a sociedade, no momento não é a tarefa desafiadora da escola, mas sim compreender que se deve mudar seu processo avaliativo para melhor instigar e desenvolver os seus alunos para uma sociedade culturalmente rica e produtiva.




INDICAÇÃO DA OBRA

O texto é simples e bastante informativo, sendo indicado para estudantes a cursos correspondente as áreas de licenciaturas, pedagogia.



REFERÊNCIAS

TEIXEIRA, Anísio Spinola, 1900-1971. Pequena introdução à filosofia da educação : a escola progressiva ou a transformação da escola. -8.ed.- São Paulo : Ed. Nacional, 1978.

SILVA, J. Introdução: avaliação do ensino e da aprendizagem numa perspectiva formativa reguladora. In: SILVA, J., HOFFMANN, J.; ESTEBAN, M.T. Práticas avaliativas e aprendizagens significativas em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre: Mediação, 2003.


LUCKESI, C.C. Avaliação da Aprendizagem. São Paulo: Cortez, 1995.
1Graduanda do Curso de Letras
2Graduanda do Curso de Letras
3Graduanda do Curso de Letras
4Graduanda do Curso de Letras
5Graduanda do Curso de Letras
6Graduanda do Curso de Letras

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

RESENHA SOBRE O CONTO PAI CONTRA MÂE DE MACHADO DE ASSIS










O conto Pai Contra Mãe de Machado de Assis nos mostra com muita ênfase um aspecto curioso da época da escravidão no Brasil, mais propriamente a decadência da escravidão. Não é um fato perceptível no primeiro momento, já que o autor fala de Candido que além de ser desempregado é preguiçoso e não está muito a fim de arrumar emprego, e começar a trabalhar com “ofício de pegar escravos fugidos”. (MACHADO, p.1).
Candido casa-se com Clara que mora com a tia Mônica. Estas duas pobres mulheres trabalham duramente enquanto Candido vagabundeia pelas ruas do Rio de Janeiro. Porém o conto não é apenas uma questão monótona do cotidiano, mas como o próprio autor relata no texto em momento em que Candido está a capturar um escravo fugitivo:
Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem. (MACHADO, p.6)

            Este trecho remete-nos a entender fatos que talvez não sejam de louvor poético, mas demasiadamente irônico, ou que não sejam realmente fatos a ser considerados, se é que a escravidão no período em que Machado tenha escrito este conto já tinha acabado, mas uma coisa peculiar e que nos chamou a atenção é o modo como ele escreve sobre a questão da escrava Arminda quando esta diz que está grávida:

Estou grávida, meu senhor! Exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero emoras; siga! (MACHADO, p.10)

            Um fato curioso de se notar é que os dois personagens têm filhos. A captura da escrava pelas mãos de Cândido iria lhe trazer uma recompensa que ajudaria na melhoria de sua família, mas esta captura fez com que a escrava Arminda abortasse a criança que ela trazia no ventre.
            O movimento realista e o gênio de Machado de Assis não lhe faz transpor no texto sentimento, e não é isso também o que sugerimos ao observar esta questão. Atentamos ao leitor para a seguinte reflexão que cremos ser a mesma de Machado naquela época: O que seria dos escravos depois que acabasse a escravidão?
            É notável o romantismo nos personagens: Clara e Cândido e a rigidez de tia Mônica, e neste aspecto a ruptura do Romantismo para o Realismo, mas isso já o era uma verdade normal nesta época dos movimentos deterministas que estavam emergindo da Europa. Porem acreditamos que este conto vai além de meras observações momentâneos, pois Machado era descendente de escravos e ter convivido com esta realidade aflorou o seu sentimento de protesto, mesmo que escondido sobre a conotação da ironia, figura de linguagem que o genial Machado Assis usava com maestria.
            Neste conto há uma critica social muito forte, ainda mais quando ele diz sem nenhum pudor a última frase do conto: “Nem todas as crianças vingam.” [...] (MACHADO, p.11)
            Uma critica social até para a época, e o mestre o fez bem, pois a escreve sem demonstrar nenhum sentimento, característica dos grandes gênios da literatura realista, quem que ele era desprovido de sentimentos, mas que a morbidez dos fatos era, a sociedade era, então assim deveria ser.
            Podemos até questionar que talvez Machado não estivesse falando sobre a questão da escravidão, argumentaríamos para o fator psíquico do ser de Candido e Clara e tia Mônica, mas isso já é visível à sociedade da época.
            Tudo isso já torna-se um fato claro do cotidiano deste período, acreditamos veementemente que Machado de Assis não iria escrever apenas um conto simplório, já que sendo um escritor universalista se ateu as mínimas coisas em uma obra que tem como fundo uma sociedade que já mostrava um declínio social no sentido de princípios morais e humanos influenciada pelo crescente domínio do capitalismo do final do século XIX.


REFERÊNCIA

  MACHADO, Assis. Pai contra mãe. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro 
 A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo DISPONÍVEL EM: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

terça-feira, 27 de agosto de 2013

RESENHA DA OBRA POÉTICA MEU FOLCLORES DO ESCRITOR JOSÉ ARAS





RESUMO: Abordamos aqui um autor que desenvolveu no interior da Bahia, a literatura de cordel com sublime maestria. Destacando em sua obra quase sempre o tema Canudos, ou a Guerra de Canudos. O nome deste grande cordelista é José Aras, o qual escreveu entre tantos: folhetos de cordel e dois livros autobiográficos, Sangue de Irmão e No Sertão do Conselheiro, também a obra que damos desataque, Meu Folclore. Nestes livros o poeta expõe suas experiências no sertão e a riqueza cultural de sua época. São livros de memorais, e conta através de relatos, como era os sertões na época pós-guerra de Canudos.


PALAVRAS-CHAVES: Guerra. Canudos. Poética.



INTRODUÇÃO

              Abordamos aqui um autor que desenvolveu no interior da Bahia a literatura de cordel com uma sublime maestria. Destacando em sua obra quase sempre o tema Canudos, ou a Guerra de Canudos. O nome deste grande cordelista é José Aras, que escreveu entre tantos: folhetos de cordel, dois livros autobiográficos, Sangue de IrmãoNo Sertão do Conselheiro, e a obra que damos destaque, Meu Folclore.
            Nestes livros, o poeta expõe suas experiências no sertão e a riqueza cultural de sua época. São obras de memorais, e conta, através de relatos, como era os sertões na época pós-guerra de Canudos.
Nosso objetivo não é os livros de memórias do poeta José Aras, mas, através do poema intitulado Meu Folclore, o qual fez parte de uma coletânea de cordel reunidas pelo professor e historiador José Calasans, trata do tema Guerra de Canudos, e expôs a criatividade deste grande poeta baiano. A coletânea de José Calasans, a qual esta inserida o poema de José Aras, chama-se: Canudos na Literatura de Cordel, (1984), que alem do poema de José Aras, Meu Folclore, há outros poemas de cordel, de outros escritores, tais como Euclides da Cunha, etc... e retratam memórias da guerra através de poemas de cordéis.

1 SOBRE JOSÉ ARAS

            Como fora dito antes, o poeta José Aras nasceu em 28 de julho de 1893 no sertão baiano, mais propriamente, no “Sítio Lagoa da Ilha, Cumbe, (hoje Euclides da Cunha), município de Monte Santo naquele ano, freguesia da Santíssima Trindade de Massacará.” (CAMPUS. 2010). Seu nome de batismo era José Soares Ferreira Aras. O poeta nasceu a quatro anos antes do acontecimento histórico que seria tema para a maioria das obras que escreveu, a Guerra de Canudos.
            Apesar de não ter visto a guerra de perto, José Aras deve ter presenciado fatos que foram importantes no desenrolar deste acontecimento. Por este motivo, sua obra é carregada de personagens reais que se tornaram mitos, até mesmo para o próprio autor, como se pode notar nos versos que se seguem:
Tomaram todo armamento
Víveres e munição
E espalharam boatos
Que D. Rei Sebastião
Chegou em Belos Montes
Transformou a água das fontes
Em leite e as pedras em pão.
( ARAS, 1984, p. 89)

            O mito descrito aqui é o rei Dom Sebastião que iria voltar e restaurar a monarquia imperial e destruir a república vista por Conselheiro como um regime do Cão. Está provavelmente uma lenda portuguesa utilizada no imaginário do povo de Canudos.
Alem de poeta e historiador José Aras foi também um desbravador dos sertões ajudou a fundar muitos povoados e a cidade de Euclides da Cunha. Foi um autodidata. Começo seus primeiros versos “aos 06 anos de idade (...) a caminho da feirinha de Cumbe[1].” (CAMPUS, 2010)
“Tinha inteligência, memória e sensibilidade telepática impressionante. Embrenhava-se pelos sertões do nordeste brasileiro chegando a indicar mais de cinco mil fontes. Previa, com incrível exatidão, o veio de água, a profundidade, o tipo de solo ou formação granítica e a qualidade da água.
Previu a existência do grande lençol de água do Jorro e a construção da barragem de Cocorobó, além de outros fatos.
Em 1948, desbravou a caatinga, no cruzamento das estradas transnordestina e transversal, próximo ao local da guerra, fundando, ali o povoamento de Bendegó.
Tendo feito o Censo na região do conflito, em 1920, iniciou a coleção de material bélico usado pelo exército e pelo conselheiristas, criando e instalando no vilarejo o Museu Histórico da Guerra de Canudos” (CAMPUS, 2010)

Suas obras se identificam com o povo de sua terra. O poeta foi um importante estudioso dos costumes de seu povo, principalmente do povo de Canudos, cujo o qual, defendeu exaustivamente. O Poeta José Aras faleceu na cidade de Euclides da Cunha, Bahia, em 18 de outubro de 1979.


2 A JORNADA ÉPICA DA GUERRA DE CANUDOS SEGUNDO JOSÉ ARAS

            O poema Meu Folclore escrito por José Aras sob o pseudônimo de José Sara, segundo o Professor José Calasans, (1984), tem sua data de publicação em 1957, e se encontrava no Museu do Arraial Bendengó.
Ainda segundo Calasans, o poema era uma “ Biografia de Antonio Conselheiro. Sua vida em sua terra, o Ceará. Cocorobó destruirá Canudos e restabelecerá os Belos Montes.” (CALASANS, 1984, p. 67)
Como falamos antes, este incrível poema narra a guerra de Canudos descrita por um autor que, alem de ter visto certos acontecimentos, morava na região. O poema tem como personagens, tanto os soldados quanto os jagunços, mas Aras defende os conselheiristas, que em sua visão foram “o heroísmo do sangue brasileiro.” (ARAS, 1984, p. 76)
O poema começa contando a biografia daquele que Euclides da Cunha chamou de “o anacoreta sombrio”, Antônio Conselheiro.
Nasceu Antonio Conselheiro
No estado do Ceará
Na Vila de Quixeramobim,
Pertinho do Quixadar
De família pobre e fiel
Descende dos Maciel
Muito conhecida lá.
(ARAS, 1984, p. 67-68)

            Mostra os fatos que o Conselheiro passou em sua vida, os dramas, as mortes, as acusações feitas pelo governo, e suas prisões.
E com falsa precatória
O juiz mandou-o prender
E remetido ao Ceará
Pra suas culpas responder,
Enviado a Fortaleza
Nem mesmo sua defesa
Não fez, queria sofrer.
(ARAS, 1984, p.71)

O que se segue no poema é o conflito que já temos conhecimento em muitos outros escrito, no mais conhecidos destes escritos temos o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, que narra com maestria os acontecimentos da guerra nos sertões de Canudos.
O que mais se destaca neste brilhante poema são as lendas históricas da guerra, narradas por um homem que cresceu ouvido isso dos moradores mais velho de Canudos.
O imaginário se entrelaça com o real, o fantástico envolvido com aquele povo que desafiou todo um país:
“Canudos já acabado
Quando o reforço chegou
Na manhã do outro dia
Todo o exercito cercou
Canudos ficou com nome
O resto morreu de fome                        
Canudos não se entregou.”
(ARAS, 1984, p. 97)

            Assim com este mesmo espírito guerrilheiro que os conselheiristas despertaram, até mesmo para seus inimigos, Euclides da Cunha, encera sua obra prima dizendo que “Canudos não se redeu” 2012. O poeta José Aras sentiu tal força para retratada quase da mesma forma a gloria do seu povo: “Canudos não se entregou.” (ARAS, 1984)
            A obra cordelistica de José Aras não é apenas uma narrativa histórica ao gosto popular, é uma obra estilística que mostra com universalização todo um padrão patriótico, filosoficamente falando, e com estilo provindo da literatura oriunda do povo.
Se poderia afirmar que José Aras seria um poeta original, neste poema? Esteticamente podemos dizer que sim, pois fez uma obra que está para alem de seu alcance histórico e para alem daquilo que quer realmente nos mostrar, ou seja a guerra enquanto guerra, e o que ela modificou no povo que se fez presente em tal evento. Por isso tomamos este poema como uma referencia ao poeta José Aras e o relato mais estilístico de sua obra na Literatura de Cordel.   


CONCLUSÃO

            O cordel quase sempre foi visto como uma literatura “secundaria” remetida ao “populacho”, ou seja, uma obra produzida pelo povo. Na Bahia temos grandes cordelistas, os quais não são reconhecidos como poetas, mas como coadjuvantes de uma literatura sem prestigio.  
Para isso é importante mostrar a beleza da poética de José Aras em seu cordel Meu Folclore. Uma poética realizada no sertão baiano, por um escritor que viu de perto a herança de uma guerra tirana sobre um povo forte e que não desistiu e nem abdicou de seus ideais, lutou até o fim.
José Aras, o “poeta conselheirista” (José Calasans, 1984) é o desbravador, tanto do cordel como da história de seu povo. Registrou o pensamento da “gente” de Conselheiro, como eles queriam que terminasse esta guerra, e assim como deferia ser dito a toda uma nação.
A versão de José Aras sobre a guerra enaltece os conselheiristas como heróis e não como bandidos, por isso se há a necessidade de observamos com um olhar mais profundo este trabalho poético de José Aras.

  
PAULO MONTEIRO DOS SANTOS
Graduado em Letras e Filosofia; Email: paulus.monterum@gmail.com
              
REFERÊNCIA


ARAS, José. No Sertão do Conselheiro. Salvador: Contexto e Arte, 2003.

ARAS, José. Sangue de Irmãos. Feira de Santana: EMAGRAE, 2009.

CAMPUS, Ney. JOSÉ ARAS- BIOGRAFIA. Disponível em: http://www.museudocumbe.com/2010/09/jose-aras-biografia.html < Acessado em 15 de Ago. 2012>

CALASANS, José. Canudos na Literatura de Cordel. São Paulo: Ática, 1984.

CUNHA, Euclides, Os Sertões. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000153.pdf < Acessado em 15 de Ago. 2012>

CUNHA, Euclides da, Os Sertões. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003
                                              




[1] O termo Cumbe se refere à cidade de Euclides da Cunha.