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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

RESENHA DA OBRA A POÉTICA DE ARISTÓTELES


ANA NAARA DE ALMEIDA CUNHA[1]

PAULO MONTEIRO DOS SANTOS[2]

 

CREDENCIAIS DO AUTOR

Aristóteles (384 - 322 a.C.) nasceu em Estagira, na Macedónia. Estagira era uma cidade considerada grega, pois foi fundada pelos gregos de cultura jônica. É considerado um dos maiores filósofos de todos os tempos. Foi discípulo de Platão e professor de Alexandre o grande.  

                                                                                                         

 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 ARISTÓTELES. Poética.  Tradução, textos complementares e notas Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2011.


 RESUMO: O livro intitulado Poética, escrito pelo filósofo grego Aristóteles (384 - 322 a.C.), é composta de 26 capítulos. A obra em estudo é pautada sobre um esboço estético da criação poética tendo como fundamento a tragédia e a poesia épica. É também, por assim dizer, o primeiro estudo estético de Literatura.

Dispomo-nos a tratar da poética ela mesma, bem como de suas formas e do poder de cada uma delas; da construção da narrativa necessária a excelência e beleza da criação poética, da quantidade e natureza das partes desta e igualmente dos outros aspectos relativos a essa investigação, começando, naturalmente, pelos primeiros princípios. (ARISTÓTELES, 2011, p.39)

 

Aristóteles (2011) começa sua análise tecendo comentários a cerca das formas que constituem a criação poética, empenhando-se em discutir a poesia épica e a trágica. A princípio, o autor expõe-nas os tipos de imitação que se diferem apenas nos meios, nos objetos ou nos modos. Diante disso, existem outras formas que se diferenciam a partir dos meios utilizados para sua formação, ritmo, melodia e métrica, o que não desfaz a produção de uma imitação. Essa imitação se da na forma. O autor tenta trabalhar na perspectiva da imitação entre estas artes poéticas.

 Assim como algumas pessoas usam formas, cores e voz na representação ou imitação de alguma coisa, a poesia épica e a trágica produzem imitações em ritmo, discurso ou harmonia, seja de forma isolada ou a partir de combinação. Ao analisar a criação poética, Aristóteles sustenta, como segunda forma de distinção, a presença da imitação na poesia vinda como reprodução das ações humanas em níveis que se diferem entre boas e más ações. Essa diferença na representação das virtudes, exercem papel fundamental na distinção. Por exemplo, entre a tragédia há representação superior das pessoas, e na comédia há representação inferior. Já o terceiro modo de distinção, segundo o autor, seria o modo como esses objetos são imitados:

 

Em consonância com isso, Sófocles, num certo aspecto, poderia ser classificado, enquanto artista da imitação, como tendo afinidade com Homero, na medida em que ambos retratam pessoas boas e, por outro lado, como a tendo com referencia a Aristófanes, pois ambos representam as pessoas agindo diretamente; disso se originam a afirmação de alguns de que se atribui o nome drama às peças porque representam as pessoas em ação. (ARISTÓTELES, 2011, p. 43)

 

Ainda nessa linha de entendimento, o autor salienta que a poética se origina em duas causas naturais, tendo em vista que esta divisão se caracteriza no víeis da imitação. Diz Aristóteles que “no ser humano a propensão à imitação é instintiva desde a infância, e nisso ele se distingue de todos os outros animais; ele é o mais imitativo de todos, e é através da imitação que desenvolve seus primeiros conhecimentos.” (ARISTÓTELES, 2011, p. 44). E neste jogo da ação imitativa é que a poesia subdivide-se em dois ramos, ou seja, “os indivíduos mais sérios dedicaram- se à imitação de ações nobres, e daqueles que as realizavam, ao passo que os indivíduos mais vulgares representavam as ações de pessoas vis.” (ARISTÓTELES, 2011, p. 45).

 Aristóteles faz uma diferenciação e uma relação entre a tragédia e a epopéia que merece ser dita: Primeiro que a epopéia se relaciona com a tragédia no fato das duas constituírem-se de assuntos sérios, mas diferem-se pelos temas: a epopéia fala do épico, ( das virtudes valorosas) e a tragédia expõem as fraqueza do sujeito. Aristóteles diz também:

 

Assim aquele que sabe discernir entre a tragédia de boa qualidade e a deficiente sabe o mesmo no tocante à epopéia, visto que os recursos da epopéia são encontrados na tragédia, enquanto nem todos os recursos da tragédia são encontrados na epopéia. (ARISTÓTELES, 2011, p. 48)

 

Cuidando das partes individuais de cada gênero, tragédia e epopéia, Aristóteles se dedica a esboçar cada um destes dois elementos poéticos, sendo a tragédia um dos primeiros. Diz-nos o filósofo que a tragédia é necessariamente composta de seis componentes: narrativa (roteiro), caráter, elocução, pensamento, espetáculo visual e poesia lírica. Cada um destes elementos se acha, de maneira significativa, dentro da tragédia com sua ação fundamental que é a imitação. Por outro lado, Aristóteles (2011) alega, apoiando-se na definição anterior, que a imitação de uma ação séria, na tragédia, deve ser completa e extensa, de linguagem agradável, em forma de interpretação teatral, onde os atores visão o aliviamento da compaixão e do medo.

 

A tragédia não é a imitação dos seres humanos, mas da ação e da vida, da felicidade e da infelicidade. (A infelicidade também sendo resultado da atividade), o fim sendo uma certa espécie de ação e não um estado qualitativo. Embora seja em função do caráter que as pessoas possuem determinadas qualidades, são sua ações que determinam sua felicidade ou o contrário. Assim, os agentes não atuam com o objetivo de prover imitação de caracteres; antes, o acréscimo é em função de suas ações. Por conseguinte, os atos e a narrativa (roteiro) constituem o fim da tragédia, sendo o fim o mais importante de tudo. Sem ação não há tragédia. (ARISTÉTELES, 2011, p.50)

             

 Se a imitação abarca uma ação, então a narrativa é uma imitação. Daí que a tragédia é composta por narrativa e caráter, meios de imitação, sendo o primeiro a “alma da tragédia” e o segundo o que revela prévia escolha moral; elocução, (maneira de imitação, ou seja, expressão através da escolha das palavras; pensamento, espetáculo visual e poesia lírica) objetos de imitação de modo que o primeiro é “a demonstração de uma coisa que é ou não é” (ARISTÓTELES 2011, p. 51).

 Ressalta-se que, a importância maior da tragédia, sugerida pelo autor, é a estrutura dos atos, elementos da narrativa (roteiro), as peripécias e os reconhecimentos que constituem, conforme já citado, a alma da tragédia. Aristóteles, afirma que a tragédia é imitação de uma ação terminada, portanto completa, como um todo. Nessa perspectiva, ele menciona que “um todo é aquilo que possui começo, meio e fim.” (ARISTÓTELES, 2011, p. 52) Logo definindo o conceito de início, meio e fim, o autor ostenta a importância de uma narrativa (roteiros) manter esse princípio. Ademais, Aristóteles anuncia que a imitação de uma ação é em partes. O que, no entanto, não ocorre se a narrativa (roteiro) for realizada em torno de um indivíduo, considerando a diversidade de ações/eventos que o constituem. Se a narrativa (roteiro) é a imitação de uma ação, ela tem que pautar-se em um único objeto realizando-se de forma integral. Seguidamente, o autor elenca que as funções do poeta, dentre as várias, é principalmente de relatar previsões, probabilidades e necessidades dos eventos (ações), e não o que aconteceu realmente, pois esta função é cabível apenas ao historiador. Consoante a isso, ele afirma que:

 

O poeta deve ser mais um criador de narrativas (roteiros) do que de versos, na medida em que é poeta devido à imitação, e esta sua imitação é das ações. Mesmo que sua poesia verse sobre eventos passados, não é por isso que ele é menos poeta, visto nada impedir que alguns eventos passados sejam tanto prováveis quanto possíveis, e é com base na probabilidade que o poeta cria a partir deles. (ARISTÓTELES, 2011, p.56)

 

 Assim, sendo a poesia mais filosófica e mais elevada, quer dizer, universal, o poeta deve distanciar-se das particularidades e realidade das ações. O autor evidencia que isso, em contrapartida, não ocorre em algumas tragédias construídas em narrativas tradicionais que trazem nomes reais e conseqüentemente ações. Então, os poetas não devem espelhar-se nesses tipos de narrativas, mas atuar criativamente proporcionando prazer, haja vista que a imitação não pode limitar-se a completude das ações, mas deve proceder contrariando as expectativas a partir de aspectos como medo e compaixão, expondo assim uma beleza maior. Aristóteles distingue dois tipos de narrativas, sendo elas: a simples, ação contínua e unitária; e a complexa: transforma-se a partir do reconhecimento e peripécia. Mas o que seria peripécia e reconhecimento? Segundo o filósofo, “a peripécia é uma mudança para a direção contrária dos eventos”, (ARISTÓTELES, 2011, p. 57). Ou seja, surge da própria estrutura da narrativa em sucessão a eventos anteriores, conforme necessidade, ou probabilidade produzindo resultados contrários. O reconhecimento por sua vez é a conquista do conhecimento que levará a amizade, a boa sorte ou o contrário. Considerando que a tragédia é a imitação de uma ação, que produz compaixão e medo, esses dois elementos, assim como propõe o autor, serão fundamentais para que isso ocorra. Vale evidenciar que além desses sentimentos conseqüentes, existe o sofrimento, que resulta de ações com destruição e dor, afetando tanto o corpo quanto a alma. Em relação às partes distintas que se divide a tragédia, segundo Aristóteles (2011), tem-se: prólogo: parte auto-suficiente da tragédia que antecede a entrada do coro; episódio: parte integral da tragédia entre cantos completos dos coros; saída do coro: parte integral da tragédia que sucede ao último coro, e o canto do coro; este divide-se em parodos e estasimon (comuns), e esquenes e comoi.

 Aristóteles adverte em seguida, aquilo que deve ser evitado e almejado na construção da narrativa da tragédia: primeiramente, reforçando os conceitos expostos por ele anteriormente, instrui que a tragédia tem que ser complexa, provocando medo e compaixão, sendo, pois, uma mudança da boa sorte para o infortúnio, causado por um grande erro cujo personagem seja mais voltado para o bem do que para o mal. A título de exemplo tem-se Eurípedes, do qual as obras, em maior parte, terminam em infortúnio.

 Outro sim, o medo e a compaixão são prazeres que devem ser proporcionados desde a leitura e escuta dos fatos que sucedem a tragédia. Um poeta superior, segundo a visão de Aristóteles (2011), não busca tão somente essas sensações através dos espetáculos, mas a própria estrutura da narrativa deixa transparecê-las. Devem-se almejar os extremos, pois o sofrimento, que é componente da tragédia, não é gerado somente pelo terror, mas também pela compaixão, como por exemplo: o pai matar um filho. Isso, todavia, será mais belo se o reconhecimento acontecer depois da ação trágica. A ação pode realiza-se ou não, com ou sem o conhecimento daquele que realiza.

 No decorrer dos capítulos, Aristóteles (p.64) afirma a existência de quatro pontos principais no que se refere aos caracteres. O primeiro é que os caracteres sejam de qualidade, isto é, um bom caráter surge quando a prévia escolha do personagem é boa. O segundo ponto é conveniência e o terceiro é a semelhança. Por semelhança, entende-se, o que é distinto de tornar o caráter bom e conveniente. O quarto ponto, finalmente, é a coerência, que segundo o filósofo entende-se:

 

No que diz respeito ao caráter, do mesmo modo que na estrutura dos fatos, cumpre sempre vincular-se ao necessário ou ao provável, de modo que em seu discurso ou em suas ações, a pessoa se conforme ao necessário ou ao provável, sendo a seqüência dos eventos também necessárias ou provável. (ARISTÓTELES, 2011, 65).

 

Desta forma, o artifício cênico só deve ser utilizado em eventos externos e fora do alcance do conhecimento humano, já que nem tudo pode ser visto (isso exceto os deuses que são maiores tanto em capacidade física quanto interpretativa. Ainda nessa perspectiva o autor revela que (p.66):

 

Como a tragédia é imitação daqueles que são melhores do que nós, convém agir como os bons pintores de retratos, que reproduzem os traços distintivos de um indivíduo e, concomitantemente, sem perder de vista a semelhança, aumentando a beleza dele. (ARISTÓTELES, 2011, 65).

 

O filosofo também aborda sobre a importância do reconhecimento através dos sinais, da inventividade, da memória, do raciocínio e dos próprios fatos que se dão na tragédia, ajudando a modelá-la na sua estrutura poética. Assim, ensina Aristóteles quanto à criação poética, o dever de observar os detalhes supracitados a fim de evitar erros que prejudiquem a beleza e qualidade das narrativas. “Quando se constroem narrativas e se está envolvido na elocução em que são elaboradas, convém lembrar de dispor as cenas reais, na medida do possível, diante dos próprios olhos.” (ARISTÓTELES, 2011, p.69) Ou seja, cada cena tem sua qualidade, nada na peça deve ser vista como um cena simplesmente sem importância, ou ao menos, tornar cada cena significativa para platéia.

 Aristóteles (2011) nos fala que toda tragédia tem de encerrar sua complicação e o desenlace, tendo em vista que toda peça tem de haver uma complicação de boa sorte ou de má sorte. E qualifica as tragédias, para melhor explorar estas complicações, em quatro espécies: a complexa; a do sofrimento; a baseada no caráter; e a quarta espécie é a simples. “Ora, o melhor é esforçar-se no sentido de possuir todas as qualidades, se isso não for possível, ao menos possuir as qualidades mais importantes e o maior número de qualidades.” (ARISTÓTELES, 2011, p. 71).

 Discute-se também na Poética a questão do pensamento e a elocução. Aborda o filósofo que o pensamente encontra seu lugar na retórica, e tudo que é expresso pela linguagem pertence à esfera do pensamento. (ARISTÓTELES, 2011, p.73) Tais características na tragédia tem de ser bem exploradas através do contexto trágico da pesa, não só por palavras, mas também por gestos e símbolos, dispensando assim a enunciação para melhor expressar tais fatos, não dispensando no sentido de que a enunciação não faça parte de tais contextos, mas não se restringindo apenas a ela. No que tange sobre a elocução, nos diz Aristóteles: “Trata-se de saber nomeadamente como se expressar o comando, a oração, a narrativa, a ameaça, a pergunta, a resposta e outras coisas semelhantes.” (ARISTÓTELES, 2011, p. 73). Para explicar tal fato, Aristóteles se aprofunda no estudo enunciativo, abordando as partes gramaticais, tais como: letras, sílabas, conjunções, nomes, verbos, artigos, casos, sentenças. Estes dois últimos, ele analisa dentro do contexto semântico a que são empregados tais elementos, dentro da enunciação. E afirma que para a excelência da elocução é-se necessário a clareza e na ausência da vulgaridade.

 

A excelência em matéria de elocução consiste na clareza e na ausência de vulgaridade. A maior clareza na elocução é a obtida mediante o uso de termos padrões, mas com isso incorre-se na vulgaridade. Exemplos disso são encontrados na poesia de Cleofonte e de Estenelo. A elocução expressiva e a que supera o vulgar é a que utiliza termos exóticos. Entendo por exótico os termos dialetais, as metáforas, as ampliações e tudo o que foge do padrão. (ARISTÓTELES, 2011, p.81).


Neste sentido, Aristóteles afirma que é necessário empregar nas narrativas termos padrões, mas logicamente incorrendo a termos que estão sobe domínio do povo, ou daquilo que se é dito corriqueiramente, porem, que dentro das narrativas tais formas enunciativas se adéqüem ao padrão. Outro aspecto que o filósofo julga importante dentro da narração é o emprego da metáfora dizendo que “ é a única coisa que não pode ser aprendida de outra pessoa, sendo um indício de dons naturais; de fato, empregar bem a metáfora corresponde a discernir similaridades.” (ARISTÓTELES, 2011, p.84).

 Nos últimos capítulos da obra Aristóteles aborda sobre a epopéia e a formação desta. Classifica o filósofo que a epopéia compreende as mesmas espécies que a tragédia, e que se encerra nas mesmas partes. Para melhor observarmos isso ditamos o exemplo que Aristóteles nós trás de Homero.

 

Homero foi o primeiro a empregar tudo isso e o fez de maneira apropriada. Quanto à estrutura de seus poemas, a Ilíada é simples e saturada de sofrimento, enquanto a Odisséia é complexa ( nela sendo copioso os reconhecimentos) e baseada no caráter. Além disso, em matéria de elocução e pensamento cada um desses poemas supera todos os demais épicos. (ARISTÓTELES, 2011, p.86)

 

A distinção que se há entre tragédia e epopéia dizem respeito às suas dimensões e ao emprego da métrica. Sendo assim, o épico goza da extensão, enquanto que na tragédia esta extensão é limitada apenas à cena que se é feita no palco. Na epopéia se encontram varias seções onde se verifica o desenvolver-se de variadas ações simultâneas. Quanto à métrica, diz Aristóteles que “a experiência comprovou que o verso heróico[3] é o que mais se ajusta a epopéia.” (ARISTÓTELES, 2011, p.87). Aristóteles enumera também problemas que podem ocorrer dentro da narrativa épica, aos quais dizem respeito à elocução de como o poeta irar proceder dentro desta narração. Entre estes problemas os mais comuns são os de sentido metafóricos: Tais metáforas provocam muitas críticas aos poetas por dizerem ou mostrarem fatos, que por sua vez, nos leva a julgar dentro do poema, elementos irracionais ou impossíveis, mas, assina Aristóteles, que estes dados é que tornam a epopéia tão complexa e a modela para seu principal objetivo que é o fantástico.

 Aristóteles discute na parte final da obra qual dos dois gêneros é superior em imitação. E conclui que “Se a menos vulgar é a superior, e se essa é sempre a que se dirige a um publico superior, está claro que a forma que imita tudo é vulgar.” (ARISTÓTELES, 2011, p.96) Classifica Aristóteles (2011) que a tragédia é vulgar em relação ao seu maior contado com aquilo que parte do público, por isso ela ser inferior, tendo em vista que tal acusação é feita a partir da interpretação e não da poética, mas em relação a esse contato a tragédia acaba sendo superior a epopéia: “É evidente que, atingindo melhor sua meta, é superior a epopéia.” (ARISTÓTELES, 2011, p.96).

 

INDICAÇÃO DA OBRA

 A obra é indicada para profissionais da educação e estudantes das áreas de Letras e Filosofia e também a estudantes de Artes.



[1] Graduação em Letras – Língua Portuguesa – (UNEB)

[2] Graduação em Letras – Língua Portuguesa – (UNEB); Graduação em Filosofia (FAVI)

[3] Verso decassílabos, de dez sílabas.

 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Entrevista com o representante da Quadrilha Caipiras Aloprados, Sandro Macedo.



Forró Quentão é um concurso de quadrilhas juninas existente em Euclides da Cunha, desde 2009 promovido pela Prefeitura Municipal. As apresentações são os momentos mais ansiosos aguardados pelas Quadrilhas, que, então, ganham visibilidade e o reconhecimento da comunidade, da família, do município e dos próprios quadrilheiros. Mas por trás destes bastidores há toda uma luta que passa despercebida de nossa percepção enquanto espectador. Como por exemplo, as reuniões para escolha de tema, trilha, coreografias, estruturas, figurinos, adereços, os machucados dos tombos, as desavenças, sacrifícios e abnegações para que o trabalho árduo seja enfim apresentado com prazer contagiando o público.”

Carlos Carneiro



Revista Antônio Conselheiro: Quando surgiu a Caipiras Aloprados e quem são seus fundadores?

Sandro Macedo: 1998. Fundado por Clodoaldo Rehem e Keliston Lopes.

Revista Antônio Conselheiro: Quantos integrantes são os Caipiras Aloprados, quantos casais, quantos na produção, todos moram no Aribicé?

Sandro Macedo: A quadrilha Caipiras Aloprados, esse ano foi formada por 30 integrantes, 10 casais, um marcador e uma participação do pai da noiva. 8 na produção. 2 integrantes não moram em Aribicé, um mora no povoado De Muriti e outra no povoado Suares.

Revista Antônio Conselheiro: Destes anos de existência qual foi o melhor e pior ano que os Caipiras Aloprados têm em sua historia?

Sandro Macedo: Melhor ano 2010 e o pior 2011.

Revista Antônio Conselheiro: Quais foram as maiores dificuldades para montar e colocar em cena “O despontar de uma chama que ecoa no sertão”, tema deste ano de 2015, por vocês Caipiras Aloprados?

Sandro Macedo: Para montar, a gente como organizador, devemos ter bastante paciência e compromisso, além disso temos que sentir confiança dos dançarinos, já colocar em cena, só o que atrapalha é a ansiedade, mas no fim tudo dá certo.

Revista Antônio Conselheiro: Como acontece o processo criativo e a escolha do tema, comungando assim com a trilha e as coreografias que embelezam o espetáculo da Quadrilha junina?
Sandro Macedo: O 1º passo foi estudos com bastantes pesquisas ate chegarmos neste tema 2015. O 2º passo foi ir em busca de melodias que embelezam o nosso tema sem perder o foco, e 3º foi de acordo com as músicas que criamos os passos, finalizando esse projeto 2015.

Revista Antônio Conselheiro: Os Caipiras Aloprados têm apresentado além do Forró Quentão?

Sandro Macedo: Sim

Revista Antônio Conselheiro: Os Caipiras Aloprados já enfrentou algum problema com os ônibus, com o som, com a organização dos arraiais por onde esteve, com a estrutura onde são recepcionados?

Sandro Macedo: Enfrentamos com os ônibus, que as vezes os motoristas, não querem seguir as regras passadas por nós e pelo Forró Quentão. Já em questão de som, organização de arraiais e recepção, a gente nunca passamos por nenhum problema.

Revista Antônio Conselheiro: Forró Quentão é um concurso de quadrilhas juninas existente em Euclides da Cunha, desde 2009 promovido pela Prefeitura Municipal, houve algum ano em que os Aloprados não participaram?

Sandro Macedo: Houve, em 2012.

Revista Antônio Conselheiro: As apresentações são os momentos mais ansiosos aguardados pelas Quadrilhas, que, então, ganham visibilidade e o reconhecimento da comunidade, da família, do município e dos próprios quadrilheiros. Mas por trás destes bastidores há toda uma luta que passa despercebida de nossa percepção enquanto espectador. Como por exemplo, as reuniões para escolha de tema, trilha, coreografias, estruturas, figurinos, adereços, os machucados dos tombos, as desavenças, sacrifícios e abnegações para que o trabalho árduo seja enfim apresentado com prazer contagiando o público. O que mais você colocaria que antecede a montagem do espetáculo da Quadrilha?

Sandro Macedo: As vez até mesmo a falta de interesse dos componentes da própria quadrilha, não pela falta de vontade de dançar e sim pelo reconhecimento do concurso, juris e tais...

Revista Antônio Conselheiro: Sabemos que o apoio da Prefeitura não é o suficiente, como vocês se organizam para buscar recursos e bancar o resto das despesas?

Sandro Macedo: Vamos em busca de patrocínios dos próprios políticos, comerciantes ou até mesmo amigos, fazemos também bingos, balaios e entre outros tipos de sorteios para gerar benefícios para nossa quadrilha. Cada participante dá também uma quantia determinada pela organização, assim conseguimos bancar as nossas despesas.

Revista Antônio Conselheiro: Os quadrilheiros usam as redes sociais assim como algumas pessoas que acompanham o Forró Quentão para comentarem, parabenizarem e criticarem e muitas vezes até se agridem. Como você e os demais se portam diante das opiniões e o bombardeio de críticas e elogios?


Sandro Macedo: Do meu ponto de vista, opiniões vem às vezes para ajudar. Existem vários tipos de criticas sim, sempre ouvi. As construtivas são bem vindas e as que só vem para atrapalhar são ignoradas. O São João é um momento de festejo e alegrias, porém devem ser aproveitados sem brigas e intrigas.

Revista Antônio Conselheiro: Conte-nos um pouco do puxador (animador), dos noivos, do casal de rei e rainha dos Aloprados.

Sandro Macedo: Eu como puxador, esse ano vir um pouco assustado, por ser minha primeira vez como puxador, mas tenho a cada dia se apaixonado pelo meu papel. Nosso casal de noivos nasceu pela simpatia e compromisso pela quadrilha, abrilhantando ainda mais o nosso São João. Nosso casal de rei e rainha, sendo eles o sol e a lua, uma comparação do amor dos noivos que, pelo motivo do pai do noivo ser apenas um vaqueiro, não quer deixar eles ficarem juntos para viver um grande amor.

Revista Antônio Conselheiro: Se os Aloprados tivesse alguma sugestão para melhoraria do Forró Quentão seria em qual sentido?

Sandro Macedo: Sendo concurso, a minha sugestão seria juris de outros lugares que não tivesse nenhum contato com nenhuma quadrilha, já sendo festival, só sugeria uma melhor alimentação para os quadrilheiros e mais reconhecimento.

Revista Antônio Conselheiro: O público entre eles, comunidade, familiares representantes de outras Quadrilhas, amigos e apreciadores formam a torcida organizada que cantam, gritam, aplaudem, enfim, divide com a Quadrilha a mesma emoção, certamente isso dá mais energia. Como vocês lhe dão com isso?

Sandro Macedo: Momentos únicos, é uma satisfação grande ouvir o público cantar e aplaudir o nosso projeto, é o que faz um quadrilheiro sorrir e alegrar o arraia.


 

Entrevista concedida a Carlos Carneiro, letrado pela UNEB, teatrólogo poeta e diretor de teatro 


quarta-feira, 29 de abril de 2015

ARTIGO: A CATARSE COMO MEIO DE SUPERAÇÃO PARA CONFLITOS FAMILIARES ATRAVÉS DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL


Andrezza Miranda de Andrade1
Camila Bastos Silva2
Cleide Carvalho Matos3
Daniela Moura Conceição4
Josilma Santos de Jesus5
Nilton Carlos Carmo Sousa6
Raíne Simões Macedo7
RESUMO
Este artigo propõe abordar o papel que a Literatura Infanto-Juvenil exerce no psicológico da criança, bem como explanar seu surgimento e como esta pode servir de auto-ajuda para a resolução de problemas por meio da catarse. Para isso será explicitado inicialmente, a trajetória da literatura infanto-juvenil, assim como o conceito de catarse no que diz respeito aos conflitos familiares. Serão utilizadas como recursos bibliográficos as obras “A Psicanálise dos Contos de Fadas” de Bruno Belheteim (1980), “A Literatura Infanto-Juvenil Brasileira Vai Muito Bem, Obrigada!” de Glória Pimentel Correia (2006), e “Catarse e Final Feliz” de Myriam Ávila (2001), bem como alguns artigos.


PALAVRAS CHAVE

Literatura infanto-juvenil; catarse; conflitos familiares


INTRODUÇÃO

A literatura infanto-juvenil tem papel fundamental na formação da identidade social da criança leitora, uma vez que não tem apenas o intuito de diverti-la, mas também o de informá-la e de desenvolver sua personalidade nos diversos estágios psicológicos, transmitindo as experiências da vida de modo significativo. Neste sentido, esta função é cumprida através do que se denomina catarse, que pode ser entendida como um meio de evasão. Segundo Aristóteles, “a catarse refere-se à purificação das almas por meio de uma descarga emocional provocada por um drama” 8, sendo assim, seria um modo de desabafar através da arte literária uma dor por meio da relação leitor/texto. No entanto, a literatura infanto-juvenil não se restringe apenas à catarse, como purgação de sentimentos maléficos, mas ela também consiste como um “fenômeno norteador de nossa intervenção na sociedade, com o intuito de buscar soluções para os desequilíbrios sociais e modos de aprimoramento de nossas relações humanas.” 9 Desse modo, a literatura propicia na criança uma leitura ampla de mundo, à medida que aguça a sua sensibilidade e inteligência.
Partindo disso, pretende-se aqui especificar um conflito que pode ser superado por meio de funções catárticas na literatura, a saber, os conflitos familiares originados do rompimento do vínculo dos pais, enfatizando as mudanças que ocorrem na rotina da criança que vive a guarda compartilhada.

1 O PERCURSO DA LITERATURA INFANTO-JUVENIL

O surgimento da literatura infanto-juvenil está atrelado a quatro fatores que, apesar de ter fomentado sua expansão, foram empecilhos para a sua valorização enquanto gênero: o advento da burguesia, o reconhecimento da infância como uma fase importante e a necessidade de orientá-las na sua formação, e a criação das escolas.
É exatamente no momento em que a classe burguesa está em vigor que é arquitetada essa literatura atribuída infanto-juvenil. Há muito tempo a literatura endereçada as crianças e jovens, ficou sujeita à marginalidade e à depreciação, devido a seu vínculo à instituição escolar desde a sua origem. Por conseguinte, isso colaborou para seu feitio moralista autoritário e pedagógico. Outro fator relevante é que a princípio os contos de fadas criados eram para o público adulto, mas que triunfou entre o publico infantil.
Todos estes fatos supracitados foram pertinentes para essa literatura ter ganhado um caráter utilitário, por isso ter sido desvalorizada. Além disso, o autor era considerado como o dono da verdade, ou seja, seus escritos eram via de mão única, a qual não tinha espaço para o outro (leitor), por isso pode-se dizer que o destinatário é um receptor passivo, que não participava ativamente do texto. Consequentemente, isso restringiu a importância do fator estético. Dessa forma, a literatura não priorizou nas suas origens, uma criação cuja intenção primeira é o prazer, mas sim como reflexo da tradição popular, neste sentido é marcada pela oralidade.
Fontes como fábulas, mitos, lendas, contos de fadas foram transmitidos oralmente, estes fazem parte do quadro de tradição oral, cuja foi basilar para a literatura infanto-juvenil. Nessas fontes se encontram a imaginação e o maravilhoso, assim, a literatura mescla todos esses universos, ganhando um perfil mais condizente ao leitor mirim. Deste modo a literatura
[...] promove recreação, também cultiva valores necessários à vida em sociedade e favorece o raciocínio e inteligência da criança e do jovem. Ela pode significar também evasão, se os elementos da fantasia e da imaginação estiverem presentes”. (SOUZA, 2006, p. 53-54)

Assim no século XIX a literatura infanto-juvenil ganha destaque, pois se desvencilha do caráter utilitarista e passa a privilegiar as crianças. Pode-se dizer que há uma nova ótica, pois os adultos passam a entender a necessidade de estimular as crianças pelo gosto da leitura. Nesse momento, passa-se a dar importância à fantasia, o sonho e a emoção, acima daquele caráter autoritário e pedagógico que residia na literatura.
Pode-se ver que a literatura alcança novo cenário, de revitalização, pois a partir do momento que o elemento estético se faz presente, esta literatura começa a fazer sucesso. Essa literatura era tida como uma escrita funcional, isto é, algo monólogo, sem interação do leitor, por isso a sua depreciação. Mas quando esta literatura abandona esse caráter autoritário ela ganha uma roupagem que se adéqua ao público infantil, deixando de lado seu cunho utilitário e dando lugar a emoção.

2 A CATARSE E OS CONFLITOS FAMILIARES

Catarse é uma palavra derivada do grego kátharsis", que significa purificação, evacuação ou evasão. Além de ser usada na medicina e na psicanálise, também é utilizada nas artes, inicialmente na tragédia, a qual é postulada por Aristóteles como a desencadeadora de catarse, pois compreende um conflito entre personagens. Geralmente são histórias que têm finais tristes, onde o herói trágico, por atitude exagerada, passa da "Felicidade" para o "Infortúnio", alcançando assim a catarse. Mas esta também pode ser encontrada nas tragédias modernas como, nas obras de William Shakespeare, famosas por serem forte influência ocidental.
Neste sentido, a catarse, na literatura infanto-juvenil, compreenderá um meio da criança superar o sofrimento que sente diante de um conflito, nesse caso, familiar, através da história de uma personagem que passe por conflitos semelhantes.
Sabe-se que a literatura infanto-juvenil atrela a estética e o lúdico, sendo estes elementos importantes para a propiciação da criação artística, a qual amalgama o prazer, o sonho, a fantasia para o universo da criança. Mas atrela-se ainda à literatura, a relação entre catarse e o estético, chamando-se assim, de catarse estética, cuja, marcará o encontro do leitor com o que ele tem de emoções mais autênticas, do que ele é do ponto de vista afetivo, remetendo-o para o gênero humano de forma direta e imediata.
A partir do momento em que a criança tem essa experiência afetiva tão forte, ela se transforma profundamente, se transportando de sua vida cotidiana para o mundo das emoções, como sendo somente ela e o livro.
Ao retornar ao seu mundo cotidiano, a sua posição frente a este mundo já não será a mesma, pois não é possivel o esquecimento do nível, da qualidade e intensidade das emoções pelo qual a criança teve a experiência. Principalmente, quando a criança passa por conflitos familiares, pois o seu desenvolvimento intelectual e cultural (no que consiste no agir, no pensar, no sentir), dependerão da sua relação com os pais. Então, posteriormente, com vínculos quebrados, há uma desestabilidade emocional, que apelará para a opção de muitos pais se adequarem a guarda compartilhada. Portanto, a família é bastante fundamental para o desenvolvimento cognitivo da criança, visto que a identidade e personalidade da criança é organizada a partir da estrutura familiar, fornecendo cuidados básicos para que ela tenha uma boa relação consigo mesmo e com o mundo.
A respeito da guarda compartilhada, esta é a melhor solução para a resolução dos problemas advindos de uma separação, sendo um meio de perpetuar o convívio da criança com os pais de forma igualitária. Nesse caso, pode-se afirmar que “Compartilhar a guarda é compartilhar também as decisões sobre a vida da criança: onde ela vai estudar, que esporte vai fazer, como vai ser gasto o dinheiro”.10
Mas diante de tal situação, a criança ainda tem dificuldades de adaptar-se a este tipo de cotidiano, pois tudo agora passa a ser diferente, ela passa a ter dois lares, geralmente, com regras diferentes em cada lar, as programações para finais de semana mudarão, terão que estabelecer um novo contexto de família, além de ter a possibilidade de se adaptar a uma nova família quando seus pais casam novamente.
Diante disso, a catarse, por meio da leitura, é um excelente instrumento para que a criança se posicione de maneira menos traumática perante esta situação conflituosa de ruptura de vínculos. Segundo Bruno Bettelheim (1980), os contos de fadas proporcionam à criança subsídios para suportar seus conflitos interiores, liberando emoções reprimidas, indicando alternativas, a fim de fomentar a catarse influindo o otimismo.
Para isso, vale ressaltar, que a catarse somente, não basta, é preciso também o estético, ou seja, a criança necessita “[...] ver o conflito projetado de forma simbólica e idealmente resolvido em um final feliz, evitando que ela permaneça aprisionada em seu reduto angustiante.” (ÁVILA, 2001, p. 128)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme os pressupostos, fica perceptível que a literatura infanto-juvenil alcançou mudanças significativas, pois passou a se preocupar com o público infantil, além de considerar o fator estético na escrita como um elemento importante. Vale ressaltar que este inicialmente era ausente, o que contribuiu para a sua desvalorização.
A estética contribuiu para que essa Literatura alcançasse reconhecimento, e fosse assim, apreciada. Ver-se ainda que a catarse está acoplada com a estética, promovendo aos leitores mirins uma maneira de desencadear suas emoções reprimidas por conflitos familiares, sendo desta forma, uma ferramenta de alívio, no que abrange a superação desses conflitos. Visto que para emergir essa catarse fazem-se mister experimentar momentos de traumas e de percas.
É através da catarse que a criança tem um encontro íntimo consigo mesmo, com suas próprias emoções, conflitos, traumas, isto é, é propiciada através da catarse estética uma relação interpessoal profunda, que resultará numa nova maneira de olhar seu próprio mundo, levando-a a enfrentar de maneira mais suave a sua realidade. Já que o conflito familiar, especificamente, a separação de pais, é duradouro em alguns casos, a literatura infanto-juvenil, neste caso, cumpre o papel de intervir como norteadora da readaptação que a criança precisa ter.
Diante das mudanças de rotina, a criança terá uma capacidade, através da leitura, de olhar a situação não de forma rigorosa, mas divertida. De poder transformar estas “desorganizações” de seu cotidiano em agradável, alegre, engraçado. Assim, é notória a indispensabilidade da catarse estética na literatura infanto-juvenil, e sua forte influência benéfica para superação de conflitos familiares.

REFRÊNCIAS

ÁVILA, Myriam. Catarse e final feliz. In: ___Aletria: Revista de Estudos de Literatura. 2001, p. 128.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 1980.

SOUZA, Glória Pimentel Correia Botelho. A Literatura Infanto-Juvenil brasileira vai muito bem, obrigada! Ed 1. São Paulo: DCL, 2006. p. 53-54.


1 Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
2Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
3Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
4Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
5Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
6Acadêmico do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
7Acadêmica do curso de Letras da UNEB – CAMPUS XXII- Euclides da Cunha/BA.
8http://pt.wikipedia.org/wiki/Catarse. Acesso em: 27 de maio de 2013 às 14h21min.
10http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0402201006.htm. Acesso em 30 de maio de 2013 às 15:03.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

SETE ASSASSINATOS


Amigos de minha terra
Quero agora lhes contá
Um fato que se encerra
Em minha cidade natá
Não foi sorte nem guerra
Mas vidas pré-natás.

As secas que aqui andaram
Deixaram nas mães o pavô
E os seus filhos largaram
A sorte que a vida deixou
As luzes da vida falaram:
Se é morte infantil é dor.

Era um mês frio de junho
Chovia como que faz sol
As minhocas faziam túnel
As borboletas faziam pó
Mas parecia não ser junho
Era seca verde sem sol.

Numa casa velha na roça
Dona Maria cozinhava
Suas filha lindas rosas
Mas pálidas como fantasmas
Eram cinco lindas toscas
Com sete anos cada.

Uma se chamava Joaquina
As outras iguais a mãe Maria
Maria Conceição, Maria Carminha
Maria Teresa, Maria Luzia
A penúltima era Crismina
A ultima igual a mãe Maria.

O pai sem muita educação
Era um homem de labuta
Seu nome era João
E nessa grande luta
De terra céu e pão
Vivia uma vida de surra.

Uma grande sorte bruta
Era sua vida ingrata
E a natureza com sua fúria
Trousse um tempo que secava
Nas mãos das meninas a cuia...
“Vamos ao açude encher a cabaça.”

Pra piorar a situação
E a luz que já não via
Num domingo de São João
Morri a caçula e linda Maria
Só por causa do patrão
E da comida que não via.

Passado todo o longo drama
Dona Maria e uma vigília
Foram ao cemitério leva rama
Ao tumulo do anjo Maria.
Agora na cidade era fama
Sete crianças mortas por dia.

Era agora fama na cidade
Quem beija em pé de anjo
Fica com muita coragem
Tudo isso embaixo do pano
Pra esconder a verdade
Das milhares de mortes ao ano.

E numa quente segunda-feira
Que nem si via ventania
É encontrado na esteira
O corpo da pobre Crismina.
Oh que vida mais sorrateira
Para a doce mãe Maria.

No natá nossas crianças
Esperam um presente do céu
E dona Maria tem esperança
De nunca mais pô o véu
E como se fosse uma vingança
Lhe rasgam mais um papel.

Na manhã de terça-feira
Luzia não quer comer
Seu João lhe trousse uma pêra
Isso só lhe faz sofrer
Nesta manhã de terça-feira
Luzia decide morrer.

Tão triste e o destino
Daquele flor tão inocente
Por sete dias tocam o sino
Por sete anos um lamento
Pelos fios que são tão finos
De João e Maria o sofrimento.

Em poucas semanas Teresa
Brincando em tanto quintal
Embutida dentro da sexta
Brincando de lobo-mau
Um barbeiro lhe corta a veia
Acabou seu lindo madrigal.

Talvez seus pais chorassem
A perda de sua linda filha
Mas mesmo que a amassem
Sabia de toda a sua sina
E de dentro veio a coragem
Pra tocá a louca vida.

A vida louca foi tocada
Mas o destino ali parou
Carminha flor foi levada
Para bem junto do senhor
A quinta-feira foi sangrada.
Seus pais se rasgam de dor.

“Oh que vida tão doida
Que o mundo me guardou
Resolveu levar minhas filhas
E isso só nos fez a dor
Se ontem eu sorria
Hoje eu sou só pavô.”

“Ô Maria sei que choras
E é muito justo tu chora
Mas lembre-se da aurora
Levante o teu sonhar
Hoje aqui você chora
Amanhã sei tu se alegrará.”

Sei bem que seria bom
Tudo aqui se encerrá
Mas neste triste tom
O sino fez-se ressoá
Era a Conceição que com
A morte hoje partirá.

Nesta noite de sexta-feira
Conceição ali sofreu
Sua vida fico a beira
Do caminho que tremeu
E as lembrança da ribeira
Todas elas as esqueceu.

É a morte de Conceição
Anunciava a preta velha
Com muita dor no coração
Seu pai acendeu a vela
Na luz frente um lampião
Sua mãe se descabela.

“O destino quis assim
De levá a Conceição
Para bem perto de si
Acalmai vossa aflição
Pois é feito para um fim
Esse nosso galardão.”

“Senhor vigário eu lhe digo
Nos resta ainda Joaquina
Que Deus lhe tenha consigo
E lhe ponha a mão divina
O senhor é meu amigo
Reze a luz que lhe ilumina.”

A mais de trezentos anos
Aqui se ergueu uma cruz
E por assim contar os planos
Aqui andou o Bom-Jesus
Acalmou nossos desenganos
Mas cortaram a sua luz.

Dizem o monte é santo
E essa cruz que ilumina
Mas a vida de desenganos
Foi para a pobre mãe Maria
Que como outros planos
Eram sete mortes por dia.

E o final de Joaquina
Foi como de suas irmãs
No sábado de tardezinha
Lembrará sua manhã
‘É a morte de Joaquina!
Acabou o gosto da maçã.

Um João mais uma Maria
Neste sertão de surdos
Sabiam como sofriam
As crianças como mudos.
Sete crianças morriam
Nas regiões de Canudos



Paulo Monteiro - Graduado em Letras - UNEB.