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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Resenha: ANALISE DA OBRA DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA (A BAGACEIRA) FEITA POR SILVANO SANTIAGO NO LIVRO UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS

Paulo Monteiro dos Santos[1]








REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SANTIAGO, Silvano: A bagaceira: fábula moralizante. In:____. Uma literatura nos trópicos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.



ANALISE DA OBRA DE JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA (A BAGACEIRA) FEITA POR SILVANO SANTIAGO NO LIVRO UMA LITERATURA NOS TRÓPICOS

Ao aborda a obra de José Américo de Almeida, A bagaceira, Silvano Santiago explora as varias vertentes de como o leitor pode ver o discurso que se é entendido dentro do texto: “(...) janelas por onde, ao mesmo tempo, olhar para fora de dentro e para dentro de fora do texto.” (SANTIAGO, 2000). E explora, no exemplo que extrai do livro, sobre Dagoberto (personagem de A bagaceira) como nós, leitores, olhamos esta dualidade, “este meio termo da janela”, no caso, daquele que lê a obra: “janela onde (se) olha o texto.” (p. 104)
Silvano evoca na obra A bagaceira, a importância das reticências, que no livro é frequentemente utilizado pelo autor. E de como estas reticências (que na obra mostra omissão de fala ou de pensamento) provoca no leitor dúvidas e leituras a parte, dando ao leitor a oportunidade de participar da obra e criar sua própria leitura diante do personagem. Neste caso será o leitor, que em dúvida, “sem saber o que exatamente o personagem disse,” (p. 104) faz com que o leitor participe da narrativa, juntamente com o narrador, criando um universo seu para com a obra.
Outro aspecto analisado por Silvano é a necessidade de o narrador querer explicitar no inicio da obra que sua narrativa se desenlaça em torno de mentira. Mas está mentira, “outorgou-se a si o direito de dizer a verdade dissimulada” (p. 107).
Por outro lado, vestindo desde o inicio a máscara da mentira, a ficção (como o louco nos textos medievais) outorgou-se a si o direito de dizer a verdade dissimulada, sem que sofra choques absurdos ou repressivos- diz a verdade da mentira, a verdade pela mentira, a verdade dentro da mentira. (SANTIAGO, 2000, p.107)

Silvano explora outros autores como Graciliano Ramos, na obra Caetés e São Bernardo, e José Lins do Rego em Menino de Engenho, afirmando que tais autores tentam mostra em suas obras a verdade diante da ficção, coisa que no autor de A bagaceira, o narrador tenta mostrar o contrário, ou seja, ela, sua narrativa, gira em torno da mentira. Afirma Silvano que: “No caso de A Bagaceira, faz-se ficção de propósito, pois é a maneira mais persuasiva de dizer a verdade.” (p. 111).
O autor retoma também os contrastes da trama amorosa que envolver Lúcio, Dagoberto e Soledade, personagens principais do romance. Recorda o autor que Lúcio é filho de Dagoberto, e este mesmo Lúcio, apaixonado por Soledade, vê-la casada com seu próprio pai.
Outro personagem intrínseco na trama de A bagaceira é Pirunga, irmã de criação de Soledade, primos em verdade. Este Pirunga é apaixonado por Soledade. Então, aborda o autor, colocando que “Soledade é a virgem cobiçada pelo esposo, pelo filho, e pelo irmão” (p. 117).
Esta frase de Silvano é de certa forma um trocadilho hiperbólico, que ele usa na tentativa de demonstrar a catarse da trama, pois sabemos que Lucio não era de fato filho de Soledade, muito menos Pirunga era de fato irmão. Porém a trama descrita por José Américo é tão complexa e envolvente que o leitor se vê emaranhado com a obra.
Observa-se também na analise de Silvano, uma distinção entre a natureza, que esta na essência de Lucio, e sua visão perante a qualidade desta mesma natureza. Mais ainda a sua visão da natureza humana. Também da natureza como próprio elemento físico na formação e confronto com o próprio ser do homem, ou sua própria natureza, natureza psíquica.
Para concluir, é certo dizer que o estudo de Silvano Santiago é profundamente marcado por uma analise psicológica da obra A bagaceira, tanto quando fala sobre a trama do personagem, como as tramas que acontece na mente do leitor, ao ler as reticências que se encontram no texto. Reticências que esconde uma verdade ao leitor, obrigando-o há construir sua própria realidade diante de um texto que é pura ficção.

REFERÊNCIA

SANTIAGO, Silvano. Uma literatura nos trópicos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.







[1] Graduando do Curso de letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia- (UNEB) Campus XXII.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Resenha: AVALIAÇÃO MEDIADORA: UMA PRÁTICA EM CONSTRUÇÃO DA PRÉ-ESCOLA À UNIVERSIDADE. de Jussara Hoffmann


Amanda Nunes1
Ana Carina Reis2
Damaris Passos3
Gilvanete Brito4
Lea Tatiana5
Paulo Monteiro6





CREDENCIAIS DO AUTOR

Jussara Hoffmann é Graduada em Letras pela UFRGS em 1974; Mestre em Avaliação Educacional pela UFRJ em 1981; Professora e Coordenadora Pedagógica de Escolas Particulares e de Escolas Estaduais de 1968 a 1980; Assessora de Delegacia de Educação do RS de 1981 a 1986; Curso de Extensão em Supervisão Educacional pela UFRGS em 1984. Professora da PUC-RS - Curso de Metodologia do Ensino Superior - de 1982 a 1986.


HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade – Porto Alegre: Editora Mediação, 1993. 20ª Edição revista, 2003.


RESUMO: O texto de Jussara Hoffmann, “Avaliação Mediadora: Uma prática em construção da pré-escola à universidade”, toma por base a avaliação como uma atividade que faz com que o aluno seja instigado a desenvolver seu processo cognitivo, mas o que a maioria das escolas, juntamente com seus professores perpassam é, o processo avaliativo como um sistema “classificatório de ensino de qualidade”, ( HOFFMANN, p. 12.)


O texto de Jussara Hoffmann, “Avaliação Mediadora: Uma prática em construção da pré-escola à universidade”, toma por base a avaliação como uma atividade que faz com que o aluno seja instigado a desenvolver seu processo cognitivo, mas o que a maioria das escolas, juntamente com seus professores perpassam é o processo avaliativo como um sistema “classificatório de ensino de qualidade”, ( HOFFMANN, p. 12.), ou seja, a avaliação neste caso vai dizer se determinada escola é uma instituição que tem melhor índice de desenvolvimento por parte dos alunos. A autora argumenta que este tipo de prática acaba dificultando o alunado, por quê tal metodologia torna-se um fator excludente que qualifica e desqualifica o aluno.

A sociedade argumenta, muita das vezes, que a avaliação como processo não classificatória desqualifica o ensino, por isso ainda é visível a busca de muitas famílias a escolas conservadoras, como se este fator revelasse a competência dos alunos, ao contrário a esta idéia, segundo a autora, “observamos, com freqüência, historias contrárias de maus alunos que se tornam excelentes profissionais. Ou o inverso, alunos nota 10 em cursos superiores que realizam estágios profissionais medíocres.” (HOFFMANN, p. 23). Ai se percebe que não é a avaliação como um processo classificatório que vai dizer se o aluno tem ou não tem capacidade de se desenvolver no meio profissional.

A autora também aborda em seu livro a questão do professor, sujeito mediador do processo avaliativo, e mostra que muita das vezes o professor não está preparado, como fora dito antes. Ainda, é claro, entende a avaliação na sua forma de qualificar e não de avaliar a aprendizagem do alunado. Ter notas altas não quer dizer que o aluno aprendeu o assunto. A autora diz que o aluno entende a escola fora do seu meio social e não veiculado a ele. “Escola é escola, para ele a vida é diferente.” (HOFFMANN, p. 26). Isso mostra que a pesquisa feita pela autora mostra a escola não como a mediadora do conhecimento, mas sim cumpridora da fusão de passar o conhecimento, desconsiderando a aprendizagem do estudante. A escola toma por base a ensinar, mas sem se preocupar com a realidade social do aluno. “ O que revela a concepção de escola para a memorização de fatos que não adquirem significado algum ao longo de sua vida, fatos transmitidos, memorizados, esquecidos.” Hoffmann diz ainda que a avaliação deve ser passada visando a realidade do aluno. Deve-se haver uma preocupação entre a escola no ser psíquico do estudante.

Hoffmann no livro destaca uma fala dita por uma aluna: “ Quanto mais eu vou a escola, mais eu estudo, quanto mais eu estudo, mais eu aprendo, quanto mais eu aprendo, mais eu esqueço.” (HOFFMANN, p. 26). Portanto, fica claro que a metodologia usada na educação desfavorece os alunos no sentido de produzir o conhecimento, visando a idéia de arrancar o conhecimento do aluno custe o que custar . O que mais poderia, como exemplifica bem a autora, era haver um dialogo entre escola e família sobre o adquire conhecimento e não introduzi-lo no aluno.

Em uma parte do livro a autora destaca o seguinte título: “ As charadas da avaliação”, e discerne que as atividades avaliativas são passadas em sala de aula de uma forma que não condiz com a realidade social dos estudantes, formando-se assim, na cabeça dos alunos, verdadeiras charadas. Destaca-se aqui um exemplo relevante da autora:
“Uma pessoa mora no 18º andar de um prédio de apartamento. Todos os dias desce pelo elevador para ir ao seu local de trabalho. Ao final do expediente, retornando para casa, vai pelo elevador até o 13º andar e sobe os demais andares pela escada. Isso se repete todos os dias. Você saberia dizer por quê?” ( HOFFMANN, p. 29)

A resposta da autora a questão apresentada é que “a pessoa é tão baixinha que só alcança o 13º andar” (HOFFMANN, p. 29). Os professores pesquisados deram varias respostas, isso se evidencia pelo o fato de em um processo avaliativo as questões introduzidas ao sujeito que vai ser avaliado está submetida a varias interpretações e inferências. No aluno isso ainda é mais visível porque ele relaciona as questões escolares com seu meio de convivência. Como tais questões, e isso se argumentou aqui antes, não condizem com a realidade, há um certo confronto na pessoa do estudante em relação a escola e a aprendizagem.

Aqui se faz a mesma pergunta prefaciada pela autora, “por que o aluno não aprende?” (HOFFMANN, p. 31). Não seria pelo o motivo de que não há uma preocupação da escola em relação ao sujeito do aluno, ou seja, a escola quer formar o estudante para a sociedade, mas esquece que este ser já dispõe de uma formação. Como esclarece bem a autora: “ O aluno constrói o seu conhecimento na interação com o meio em que vive. Portanto, depende das condições desse meio, da vivência de objetos e situações.”(HOFFMANN, p. 41). Hoffmann disserta que os professores, mais ainda a escola, deveria preocupar-se mais com o ser do aluno. Como este aluno está desenvolvendo sua aprendizagem entre escola e família? As avaliações deveriam frisar mais a realidade social do aluno, e o professor deveria voltar sua atenção para uma avaliação que valorizasse o ser social do aluno, fato que na escolas tradicionalista se introduz como avaliação classificatória, esquecendo totalmente das percepções empíricas e cognitivas do estudante.

Jussara Hoffmann apresenta um livro elaborado sobre a ótica da teoria e da prática. Mesmo que pareça uma utopia perguntar-se como fazer com que os alunos aprendam em um pais igual ao Brasil onde há tantos contrastes sociais, se deve acima de tudo, preocupar-se em mudar tal realidade. Como? A resposta é dada pela autora que descrevendo o significado da avaliação mediadora diz: “ Presta muita atenção na criança, no jovem, no eu. Eu diria “pegar no pé” desse aluno mesmo, instituindo em conhecê-lo melhor, em entender suas falas, seus argumentos, teimando em conversar com ele em todos os momentos, ouvindo todas as suas perguntas, fazendo novas e desafiadoras questões, (...). Neste sentido, então, teremos perseguido uma escola de qualidade para todas as crianças e jovens deste país.” (HOFFMANN, p. 28).

A autora aborda a questão da escola como um agente social e a avaliação com uma parte integrante na formação do ser social. Para isso é necessário que a sociedade compreenda que os processos avaliativos tende a serem mediadores e não classificatórios, por que é de responsabilidade social o desenvolvimento da educação. O filosofo Anísio Teixeira afirma em seu livro “Introdução a Filosofia da Educação” que: “Se há crise do "espírito", como hoje se diz, se os valores humanos, na sua perpétua transformação, conquistam novas formas e velhas ilusões se vão desfazendo em troca de valores realistas e ásperos, - é que as escolas estão a falhar na sua finalidade espiritual…e urge reformá-las.” (TEIXEIRA, p. 01).

Muitas vezes, o professor investe suficientemente na dimensão cognitiva do desenvolvimento e não dedica atenção à dimensão afetiva. Outras vezes, faz o inverso: cuida da criança com carinho e atenção, mas sem planejar adequadamente como vai ajudá-la a progredir na aprendizagem para alcançar as metas que devem ser atingidas do ponto de vista cognitivo. Assim, é proposto que cada professor, ao planejar as situações didáticas, reflita sobre os estudantes, considerando o desenvolvimento integral, contemplando as características culturais dos grupos a que pertencem e as características individuais, tanto no que se refere aos modos como interagem na escola, quanto às bagagens de saberes de que dispõem. É nessa linha de pensamento que Silva (2003, p.10) aponta “que o espaço educativo se transforma em ambiente de superação de desafios pedagógicos que dinamiza e dá significado a aprendizagem, que passa a ser compreendida como construção de conhecimentos e desenvolvimento de competências da formação cidadã.” É preciso que os professores reconheçam a necessidade de avaliar com diferentes finalidades: conhecer e acompanhar o seu desenvolvimento; conhecer as dificuldades e planejar atividades que os ajudem a superá-las; saber se as estratégias de ensino estão sendo eficientes e modificá-las quando necessário. Diferentemente do que muitos professores vivenciaram como estudantes ou em seu processo de formação docente, é preciso que, em suas práticas de ensino, elaborem diferentes estratégias e oportunidades de aprendizagem e avaliem se estão sendo adequadas. Assim, não apenas o estudante é avaliado, mas o trabalho do professor e a escola.

A concepção de avaliação perpassa a lógica de um processo de organização de ensino, relacionado com a aprendizagem do aluno e com a sociedade. A partir disso, é possível realizar os questionamentos: para que avaliar? O que avaliar? Considera-se que, ao avaliar o aluno, o professor avalia sua própria prática. Para o grupo de estudos, a avaliação serve para reorientar a prática pedagógica, ou seja, como Luckesi (1995) propõe, “verificar as falhas, compreender as causas e propor soluções, para mudar a situação que dificulta o êxito da ação educativa.” Quanto à forma de avaliar, avalia-se o todo e as mudanças de comportamentos gerados no aluno, pois se avalia para concretizar o processo de educação, como ato humano, intelectual, cientifico e sistemático. Não se pode pretender que o aluno esteja pronto ao final de cada bimestre ou ano letivo, pois como ser em construção há muito que desenvolver no processo ensino-aprendizagem. Por isso, é preciso estabelecer um diálogo constante com os estudantes. Assim, a avaliação deve constituir prática contínua e não apenas do final de um período. Como tal, exige muitas tarefas, pelas quais o aluno possa se expressar de várias formas, facilitando o ato de avaliação. Nesta direção, avaliar significa identificar as necessidades dos alunos e ir à busca de soluções para sanar essas necessidades. Neste contexto, a avaliação passa a ser diagnóstica e inclusiva, porque concebe o aluno como ser em desenvolvimento contínuo. Deve-se ressaltar a relevância da viabilização do projeto politico-pedagógico, pois é ele que vai subsidiar um processo de avaliação comprometido com o desenvolvimento. Destaca-se também como fator indispensável, a metodologia aplicada pelo docente, que deve instigar o aluno a fazer uso do conhecimento adquirido. Portanto, faz-se necessário definir um perfil de saída de cada etapa de ensino e assegurar esforços para compreender os processos de construção de conhecimentos das crianças e adolescentes. Essa complexa tarefa pressupõe uma atitude permanente de observação e registro. Se o estudante e sua família sabem aonde a escola quer chegar, se estão envolvidos no dia a dia de que são os principais beneficiários, poderão participar com mais investimento e autonomia na busca do sucesso nessa empreitada que é o aprender.

As escolas devem, e já se vê no horizonte, repensar seus valores como transformadoras de conhecimentos, por já o aluno dispor de uma relevada experiência, assim martela Hoffmann. A escola não deve só querer formar cidadãos porque o cidadão ali já está, mesmo fora da escola, em processo de formação. Buscar adaptar-se a realidade do aluno e remetê-lo a sociedade, no momento não é a tarefa desafiadora da escola, mas sim compreender que se deve mudar seu processo avaliativo para melhor instigar e desenvolver os seus alunos para uma sociedade culturalmente rica e produtiva.




INDICAÇÃO DA OBRA

O texto é simples e bastante informativo, sendo indicado para estudantes a cursos correspondente as áreas de licenciaturas, pedagogia.



REFERÊNCIAS

TEIXEIRA, Anísio Spinola, 1900-1971. Pequena introdução à filosofia da educação : a escola progressiva ou a transformação da escola. -8.ed.- São Paulo : Ed. Nacional, 1978.

SILVA, J. Introdução: avaliação do ensino e da aprendizagem numa perspectiva formativa reguladora. In: SILVA, J., HOFFMANN, J.; ESTEBAN, M.T. Práticas avaliativas e aprendizagens significativas em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre: Mediação, 2003.


LUCKESI, C.C. Avaliação da Aprendizagem. São Paulo: Cortez, 1995.
1Graduanda do Curso de Letras
2Graduanda do Curso de Letras
3Graduanda do Curso de Letras
4Graduanda do Curso de Letras
5Graduanda do Curso de Letras
6Graduanda do Curso de Letras

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

RESENHA SOBRE O CONTO PAI CONTRA MÂE DE MACHADO DE ASSIS










O conto Pai Contra Mãe de Machado de Assis nos mostra com muita ênfase um aspecto curioso da época da escravidão no Brasil, mais propriamente a decadência da escravidão. Não é um fato perceptível no primeiro momento, já que o autor fala de Candido que além de ser desempregado é preguiçoso e não está muito a fim de arrumar emprego, e começar a trabalhar com “ofício de pegar escravos fugidos”. (MACHADO, p.1).
Candido casa-se com Clara que mora com a tia Mônica. Estas duas pobres mulheres trabalham duramente enquanto Candido vagabundeia pelas ruas do Rio de Janeiro. Porém o conto não é apenas uma questão monótona do cotidiano, mas como o próprio autor relata no texto em momento em que Candido está a capturar um escravo fugitivo:
Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem. (MACHADO, p.6)

            Este trecho remete-nos a entender fatos que talvez não sejam de louvor poético, mas demasiadamente irônico, ou que não sejam realmente fatos a ser considerados, se é que a escravidão no período em que Machado tenha escrito este conto já tinha acabado, mas uma coisa peculiar e que nos chamou a atenção é o modo como ele escreve sobre a questão da escrava Arminda quando esta diz que está grávida:

Estou grávida, meu senhor! Exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei tua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço! -- Siga! repetiu Cândido Neves. --Me solte! --Não quero emoras; siga! (MACHADO, p.10)

            Um fato curioso de se notar é que os dois personagens têm filhos. A captura da escrava pelas mãos de Cândido iria lhe trazer uma recompensa que ajudaria na melhoria de sua família, mas esta captura fez com que a escrava Arminda abortasse a criança que ela trazia no ventre.
            O movimento realista e o gênio de Machado de Assis não lhe faz transpor no texto sentimento, e não é isso também o que sugerimos ao observar esta questão. Atentamos ao leitor para a seguinte reflexão que cremos ser a mesma de Machado naquela época: O que seria dos escravos depois que acabasse a escravidão?
            É notável o romantismo nos personagens: Clara e Cândido e a rigidez de tia Mônica, e neste aspecto a ruptura do Romantismo para o Realismo, mas isso já o era uma verdade normal nesta época dos movimentos deterministas que estavam emergindo da Europa. Porem acreditamos que este conto vai além de meras observações momentâneos, pois Machado era descendente de escravos e ter convivido com esta realidade aflorou o seu sentimento de protesto, mesmo que escondido sobre a conotação da ironia, figura de linguagem que o genial Machado Assis usava com maestria.
            Neste conto há uma critica social muito forte, ainda mais quando ele diz sem nenhum pudor a última frase do conto: “Nem todas as crianças vingam.” [...] (MACHADO, p.11)
            Uma critica social até para a época, e o mestre o fez bem, pois a escreve sem demonstrar nenhum sentimento, característica dos grandes gênios da literatura realista, quem que ele era desprovido de sentimentos, mas que a morbidez dos fatos era, a sociedade era, então assim deveria ser.
            Podemos até questionar que talvez Machado não estivesse falando sobre a questão da escravidão, argumentaríamos para o fator psíquico do ser de Candido e Clara e tia Mônica, mas isso já é visível à sociedade da época.
            Tudo isso já torna-se um fato claro do cotidiano deste período, acreditamos veementemente que Machado de Assis não iria escrever apenas um conto simplório, já que sendo um escritor universalista se ateu as mínimas coisas em uma obra que tem como fundo uma sociedade que já mostrava um declínio social no sentido de princípios morais e humanos influenciada pelo crescente domínio do capitalismo do final do século XIX.


REFERÊNCIA

  MACHADO, Assis. Pai contra mãe. A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro 
 A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo DISPONÍVEL EM: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

terça-feira, 27 de agosto de 2013

RESENHA DA OBRA POÉTICA MEU FOLCLORES DO ESCRITOR JOSÉ ARAS





RESUMO: Abordamos aqui um autor que desenvolveu no interior da Bahia, a literatura de cordel com sublime maestria. Destacando em sua obra quase sempre o tema Canudos, ou a Guerra de Canudos. O nome deste grande cordelista é José Aras, o qual escreveu entre tantos: folhetos de cordel e dois livros autobiográficos, Sangue de Irmão e No Sertão do Conselheiro, também a obra que damos desataque, Meu Folclore. Nestes livros o poeta expõe suas experiências no sertão e a riqueza cultural de sua época. São livros de memorais, e conta através de relatos, como era os sertões na época pós-guerra de Canudos.


PALAVRAS-CHAVES: Guerra. Canudos. Poética.



INTRODUÇÃO

              Abordamos aqui um autor que desenvolveu no interior da Bahia a literatura de cordel com uma sublime maestria. Destacando em sua obra quase sempre o tema Canudos, ou a Guerra de Canudos. O nome deste grande cordelista é José Aras, que escreveu entre tantos: folhetos de cordel, dois livros autobiográficos, Sangue de IrmãoNo Sertão do Conselheiro, e a obra que damos destaque, Meu Folclore.
            Nestes livros, o poeta expõe suas experiências no sertão e a riqueza cultural de sua época. São obras de memorais, e conta, através de relatos, como era os sertões na época pós-guerra de Canudos.
Nosso objetivo não é os livros de memórias do poeta José Aras, mas, através do poema intitulado Meu Folclore, o qual fez parte de uma coletânea de cordel reunidas pelo professor e historiador José Calasans, trata do tema Guerra de Canudos, e expôs a criatividade deste grande poeta baiano. A coletânea de José Calasans, a qual esta inserida o poema de José Aras, chama-se: Canudos na Literatura de Cordel, (1984), que alem do poema de José Aras, Meu Folclore, há outros poemas de cordel, de outros escritores, tais como Euclides da Cunha, etc... e retratam memórias da guerra através de poemas de cordéis.

1 SOBRE JOSÉ ARAS

            Como fora dito antes, o poeta José Aras nasceu em 28 de julho de 1893 no sertão baiano, mais propriamente, no “Sítio Lagoa da Ilha, Cumbe, (hoje Euclides da Cunha), município de Monte Santo naquele ano, freguesia da Santíssima Trindade de Massacará.” (CAMPUS. 2010). Seu nome de batismo era José Soares Ferreira Aras. O poeta nasceu a quatro anos antes do acontecimento histórico que seria tema para a maioria das obras que escreveu, a Guerra de Canudos.
            Apesar de não ter visto a guerra de perto, José Aras deve ter presenciado fatos que foram importantes no desenrolar deste acontecimento. Por este motivo, sua obra é carregada de personagens reais que se tornaram mitos, até mesmo para o próprio autor, como se pode notar nos versos que se seguem:
Tomaram todo armamento
Víveres e munição
E espalharam boatos
Que D. Rei Sebastião
Chegou em Belos Montes
Transformou a água das fontes
Em leite e as pedras em pão.
( ARAS, 1984, p. 89)

            O mito descrito aqui é o rei Dom Sebastião que iria voltar e restaurar a monarquia imperial e destruir a república vista por Conselheiro como um regime do Cão. Está provavelmente uma lenda portuguesa utilizada no imaginário do povo de Canudos.
Alem de poeta e historiador José Aras foi também um desbravador dos sertões ajudou a fundar muitos povoados e a cidade de Euclides da Cunha. Foi um autodidata. Começo seus primeiros versos “aos 06 anos de idade (...) a caminho da feirinha de Cumbe[1].” (CAMPUS, 2010)
“Tinha inteligência, memória e sensibilidade telepática impressionante. Embrenhava-se pelos sertões do nordeste brasileiro chegando a indicar mais de cinco mil fontes. Previa, com incrível exatidão, o veio de água, a profundidade, o tipo de solo ou formação granítica e a qualidade da água.
Previu a existência do grande lençol de água do Jorro e a construção da barragem de Cocorobó, além de outros fatos.
Em 1948, desbravou a caatinga, no cruzamento das estradas transnordestina e transversal, próximo ao local da guerra, fundando, ali o povoamento de Bendegó.
Tendo feito o Censo na região do conflito, em 1920, iniciou a coleção de material bélico usado pelo exército e pelo conselheiristas, criando e instalando no vilarejo o Museu Histórico da Guerra de Canudos” (CAMPUS, 2010)

Suas obras se identificam com o povo de sua terra. O poeta foi um importante estudioso dos costumes de seu povo, principalmente do povo de Canudos, cujo o qual, defendeu exaustivamente. O Poeta José Aras faleceu na cidade de Euclides da Cunha, Bahia, em 18 de outubro de 1979.


2 A JORNADA ÉPICA DA GUERRA DE CANUDOS SEGUNDO JOSÉ ARAS

            O poema Meu Folclore escrito por José Aras sob o pseudônimo de José Sara, segundo o Professor José Calasans, (1984), tem sua data de publicação em 1957, e se encontrava no Museu do Arraial Bendengó.
Ainda segundo Calasans, o poema era uma “ Biografia de Antonio Conselheiro. Sua vida em sua terra, o Ceará. Cocorobó destruirá Canudos e restabelecerá os Belos Montes.” (CALASANS, 1984, p. 67)
Como falamos antes, este incrível poema narra a guerra de Canudos descrita por um autor que, alem de ter visto certos acontecimentos, morava na região. O poema tem como personagens, tanto os soldados quanto os jagunços, mas Aras defende os conselheiristas, que em sua visão foram “o heroísmo do sangue brasileiro.” (ARAS, 1984, p. 76)
O poema começa contando a biografia daquele que Euclides da Cunha chamou de “o anacoreta sombrio”, Antônio Conselheiro.
Nasceu Antonio Conselheiro
No estado do Ceará
Na Vila de Quixeramobim,
Pertinho do Quixadar
De família pobre e fiel
Descende dos Maciel
Muito conhecida lá.
(ARAS, 1984, p. 67-68)

            Mostra os fatos que o Conselheiro passou em sua vida, os dramas, as mortes, as acusações feitas pelo governo, e suas prisões.
E com falsa precatória
O juiz mandou-o prender
E remetido ao Ceará
Pra suas culpas responder,
Enviado a Fortaleza
Nem mesmo sua defesa
Não fez, queria sofrer.
(ARAS, 1984, p.71)

O que se segue no poema é o conflito que já temos conhecimento em muitos outros escrito, no mais conhecidos destes escritos temos o livro Os Sertões de Euclides da Cunha, que narra com maestria os acontecimentos da guerra nos sertões de Canudos.
O que mais se destaca neste brilhante poema são as lendas históricas da guerra, narradas por um homem que cresceu ouvido isso dos moradores mais velho de Canudos.
O imaginário se entrelaça com o real, o fantástico envolvido com aquele povo que desafiou todo um país:
“Canudos já acabado
Quando o reforço chegou
Na manhã do outro dia
Todo o exercito cercou
Canudos ficou com nome
O resto morreu de fome                        
Canudos não se entregou.”
(ARAS, 1984, p. 97)

            Assim com este mesmo espírito guerrilheiro que os conselheiristas despertaram, até mesmo para seus inimigos, Euclides da Cunha, encera sua obra prima dizendo que “Canudos não se redeu” 2012. O poeta José Aras sentiu tal força para retratada quase da mesma forma a gloria do seu povo: “Canudos não se entregou.” (ARAS, 1984)
            A obra cordelistica de José Aras não é apenas uma narrativa histórica ao gosto popular, é uma obra estilística que mostra com universalização todo um padrão patriótico, filosoficamente falando, e com estilo provindo da literatura oriunda do povo.
Se poderia afirmar que José Aras seria um poeta original, neste poema? Esteticamente podemos dizer que sim, pois fez uma obra que está para alem de seu alcance histórico e para alem daquilo que quer realmente nos mostrar, ou seja a guerra enquanto guerra, e o que ela modificou no povo que se fez presente em tal evento. Por isso tomamos este poema como uma referencia ao poeta José Aras e o relato mais estilístico de sua obra na Literatura de Cordel.   


CONCLUSÃO

            O cordel quase sempre foi visto como uma literatura “secundaria” remetida ao “populacho”, ou seja, uma obra produzida pelo povo. Na Bahia temos grandes cordelistas, os quais não são reconhecidos como poetas, mas como coadjuvantes de uma literatura sem prestigio.  
Para isso é importante mostrar a beleza da poética de José Aras em seu cordel Meu Folclore. Uma poética realizada no sertão baiano, por um escritor que viu de perto a herança de uma guerra tirana sobre um povo forte e que não desistiu e nem abdicou de seus ideais, lutou até o fim.
José Aras, o “poeta conselheirista” (José Calasans, 1984) é o desbravador, tanto do cordel como da história de seu povo. Registrou o pensamento da “gente” de Conselheiro, como eles queriam que terminasse esta guerra, e assim como deferia ser dito a toda uma nação.
A versão de José Aras sobre a guerra enaltece os conselheiristas como heróis e não como bandidos, por isso se há a necessidade de observamos com um olhar mais profundo este trabalho poético de José Aras.

  
PAULO MONTEIRO DOS SANTOS
Graduado em Letras e Filosofia; Email: paulus.monterum@gmail.com
              
REFERÊNCIA


ARAS, José. No Sertão do Conselheiro. Salvador: Contexto e Arte, 2003.

ARAS, José. Sangue de Irmãos. Feira de Santana: EMAGRAE, 2009.

CAMPUS, Ney. JOSÉ ARAS- BIOGRAFIA. Disponível em: http://www.museudocumbe.com/2010/09/jose-aras-biografia.html < Acessado em 15 de Ago. 2012>

CALASANS, José. Canudos na Literatura de Cordel. São Paulo: Ática, 1984.

CUNHA, Euclides, Os Sertões. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000153.pdf < Acessado em 15 de Ago. 2012>

CUNHA, Euclides da, Os Sertões. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2003
                                              




[1] O termo Cumbe se refere à cidade de Euclides da Cunha.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Artigo: A VISÃO GLOBALISTA DE LUIS DE CAMÕES EM OS LUSÍADAS REVELADA NO POEMA DOS CASTELOS DA OBRA MENSAGEM DE FERNANDO PESSOA


Damaris Passos da Silva[1]
Gilvanete de Brito Ferreira[2]
Paulo Monteiro dos Santos[3]



RESUMO: Este trabalho consiste em discutir na obra Mensagem de Fernando Pessoa, mais propriamente no poema Dos Castelos, primeira poesia do livro, em uma intertextualidade com a introdução de Os Lusíadas de Camões, mostrando a proporção de globalização na perspectiva da interação entre as nações relacionadas a Portugal e aos países conquistados na época das grandes navegações, que é demonstrada no poema. Este trabalho se fundamente na teoria revisionista para falar sobre a visão que Camões mostrou dos feitos de seu povo português, e a mensagem que Fernando Pessoa conseguiu compreender, principalmente a amplidão do tema a que é narrado em Os Lusíadas. Um olhar de globalização entre Pessoa e Camões, a qual, os dois autores abordam em suas obras, Mensagem e Os Lusíadas.




PALAVRAS-CHAVE: Discussão. Intertextualidade. Globalização. Portugal. Navegações. Revisionismo. 
1 INTRODUÇÃO

Apresentamos aqui neste trabalho uma discussão sobre estes dois grandes autores da língua português, que viveram em diferentes épocas e tiveram estilos literários distinto. Nossa proposta é fazer uma analise, na introdução do livro Mensagem, mais propriamente no poema Dos Castelos[4], e qual a abordagem que o poeta Fernando Pessoa está a nos mostrar, fazendo uma releitura da introdução do poema os Lusíadas. Para isso buscamos suporte na teoria revisionista para a discussão de nossas idéias.    
Ante de se discutir qualquer coisa sobre Fernando Pessoa e Luiz de Camões é importante se conhecer este dois vultos da língua portuguesa. Quem são? E qual a magnitude de sua obra. Começamos a falar sobre Camões que é por excelência, juntamente com Pessoa, o maior poeta da nossa língua.
Sobre a vida de Camões o que se sabe ainda é muito pouco. Sabe-se que nasceu em Lisboa em 1524, ou talvez em 1525, não se pode afirmar com veracidade, nem mesmo sobre o local de nascimento. O que se sabe é quando jovem teria frequentado a vida palaciana.
Filho de família aristocrática da Galiza, (MOISES, 2005) devido sua vida na nobreza, consegue uma boa formação intelectual, lendo Homero, Horácio, Virgílio, Ovídio, Petrarca e outros. (MOISES, 2005). Sabe-se também que se meteu em varias confusões quando jovem.

No entanto, se se não pode provar que o poeta vivesse sempre nesta atmosfera de salão, não é menos verdadeiro ser bastante problemático a sua convivência assídua com gente de baixa estrutura moral, embora as energias que nele tumultuavam nem sempre se contivessem. (RAMOS, 1973, p.17)

            Dentre muitas confusões, as quais o poeta se envolveu, uma delas com “a Infanta D. Maria, filha de D. Manuel e irmã de D. João III.”( MOISÉS, 2005, p. 53). Camões também fere com a espada, em 16 de junho de 1552, o encarregado dos arreios do rei, Gonçalo Borges. Que segundo Ramos (1973), ocasionou a sua prisão no Tronco de Lisboa. Punição que cumpriu até março do ano seguinte.


A 7 deste ultimo mês e ano, uma carta de perdão tornar possível, de novo, a sua liberdade: o agredido estava já são e sem aleijão nem deformidades, e o poeta resolvia ir para Índia em serviço de El-Rei. Pobre, não tinha outro remédio; exaltado, tinha melhores lugares por onde prodigalizar a sua valentia. ( RAMOS, 1973, p.16)

            Desde o desembarque em Goa, Camões não permanece mais fixo em um determinado local. Servindo El-Rei, participa de vários combates em terra e varias aventuras por mar. Sobre uma desta aventuras escreve Camões:

Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera morte,
e logo se me ajuntam esperança
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudade brandas e suaves
(1555, apud RAMOS, 1973, p.18)

Nota-se uma certa nostalgia do poeta e um descontentamento com que via suas viajem e com seu trabalho como soldado.  Logo após regressa a Portugal começa outra batalha que seria a publicação de sua obra máxima, Os Lusíadas. “Vencida as dificuldades, censurada a obra pelo espírito compreensivo e muito culto de Fr. Bartolomeu Ferreira, foi publicada em 1572” [...] (RAMOS, 1973, p.20)
Uma pequena cota em dinheiro de 15 000 (quinze mil) réis, é lhe oferecida por D. Sebastião. Com este dinheiro sobrevive até sua morte em 10 de Junho de 1580.
Para a época está não era uma suma de dinheiro a que uma pessoa pudesse viver economicamente bem, então podemos dizer que Camões morreu na miséria.  
O poeta Fernando Pessoa, diferentemente de Camões nasce no final do século XIX, em 1888 na cidade de Lisboa.  Sua vida não foi muito fácil. O pai do poeta morreu quando ele tinha apenas cinco anos em 1893, e seu irmão morreu no ano seguinte sem ter completado nem um ano de nascido. Por este mesmo ano nasce o seu primeiro heterônimo, e seu primeiro poema, A Minha Querida Mãe, segundo o próprio autor.

Ó terras de Portugal
Ó terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.
(1893,apud, wikisource, 2013)

A mãe do poeta casa-se em 1895 com o cônsul de Portugal em Durban (África do Sul) e Pessoa muda-se para África onde passa quase toda a sua juventude e recebe educação inglesa. No colégio começa a se destacar como escritor.
Em 1905 retorna a Portugal e passa a viver com a avó, ai começa uma intenção produção literária e atividades como crítico em jornais da época. Em 1915 participa da revista literária Opheu, revista que lançou o movimento modernista em Portugal.
É na revista Orpheu que começa a aparecer seus principais heterônimos, Alberto Caeiro, Álvaro de Campus e Ricardo Reis.
No ano de 1935 o poeta morre vítima de cirrose hepática, deixando uma vasta obra literária.
De inicio perguntamos o que tem estes dois vultos da poesia portuguesa em comum alem da genialidade? E qual é a ligação entre os dois poetas?
Acreditamos que a resposta para tal questionamento esteja no seu país de origem, Portugal. E mais ainda. Esteja também na crença em reviver um Portugal glorioso, como este o era nos tempos das grandes navegações.
Talvez este seja o elo que Pessoa fez em seu livro Mensagem, descobrindo-o nos Lusíadas de Camões. Mas acreditamos que há mais coisas que Pessoa visualizou em Camões, coisas que diz respeito não só a Portugal, mas também aos países de língua portuguesa, e sobre como Portugal ajudou a mostrar ao mundo outros mundos alem do europeu.

2 O POEMA DOS CASTELOS COMO VISÃO GLOBALISTA NAS NAVEGAÇÕES DE  OS LUSÍADAS DE CAMÕES?

Ao lermos o primeiro poema de Fernando Pessoa em seu livro Mensagem, (O Dos Castelos) logo notamos que não é um simples poema com simples metáforas, tão pouco, com frases clichês.  Nota-se que Pessoa não irá abordar uma ingênua introdução que a principio do texto mostra querer fazer um mapeamento de Portugal.






A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
(PESSOA, 2013, p.2)

Diga-se que nesta estrofe observamos que o poeta tenta nos dizer onde está localizado Portugal, sua área geográfica, evidentemente na Europa.
“De Oriente a Ocidente jaz, fitando [...]” (PESSOA, 2013, p. 2), porém neste verso é de se notar que Pessoa  nos revela que seu continente olha prostrado e com atenção para o oriente e  ocidente. Que atenção seria está?
É relevante dizer que na época de Fernando Pessoa, a Inglaterra era a superpotência que ditava a ordem mundial sob o braço forte da rainha Vitória. Pessoa vivia a era vitoriana.
Portugal também foi uma superpotência que dominou os mares entre o séculos XV e XVI. Antes de Portugal só mesmo o império romano teve maior poder. O que queremos mostra com isso, é justamente revelar o que nós diz Pessoa na segunda parte do poema:
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
(PESSOA, 2013, p.2)        

Esta estrofe se remete aos paises que tiveram grande poder, um antes de Portugal, e o outro logo após.
Um fato curioso é que Portugal estava em crise justamente na era vitoriana. Tinha perdido sua principal colônia, o Brasil, e na época de Camões também tinha perdido seu poder para a Espanha.
Acreditamos que está estrofe se assemelha bem a uma passagem de os lusíadas que fala:

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se levanta.
(CAMÕES, 2013, p. 2)

Duas civilizações que alcançaram poder e gloria representados por Alexandre, grego, e Trajano, romano.
Foi apenas com Alexandre que a Grécia teve seu apogeu. Trajano fez a mesma coisa em Roma. Com ele o império romana teve a maior área territorial conquistada a que se tem noticia na história da humanidade.
O que se percebe é uma ligação, propositalmente analisada na obra de Pessoa em relação a obra de Camões. Uma evidência que estes dois autores depõem em relação a decadência que Portugal passava no período em que ambos poetas viveram.
O mais interessante no poema de Pessoa é quase que uma espécie de profecia que o poeta diz na penúltima estrofe:

A mão sustenta, em que se apóia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
(PESSOA, 2013, p.2)

Ora, quem seria este futuro do passado? Lembrando que falamos de superpotência. O que julgamos ser dito nesta passagem pelo poeta é uma alusão a América. “Ocidente, futuro do passado.” [...] (PESSOA, 2013, p.2) Mas a que país se refere Pessoa? Estados Unidos? Brasil? Talvez não esteja se referindo a um país especificamente, mas a toda a América. A uma visão globalista de poder.
Seria o mais provável que analisássemos este olhar globalista que Pessoa viu em Camões, ou seja, na revelação que Portugal fez ao mundo, sobre o que as grandes navegações portuguesas mostraram ao mundo como novas terras, novos povos, novas culturas.
“O rosto com que fita é Portugal.” (PESSOA, 2013, p.2) Obviamente que não foi fácil para a humanidade este globalismo feito durante a era das grandes navegações pelos portugueses. Sobre isso diz Fernando Pessoa no seu celebre poema Mar português, também do livro Mensagem:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
(PESSOA, 2013, p.11)

O fato é que não foi fácil para ninguém. Morreram índios, africanos e europeus, neste choque de culturas, como diria Euclides da Cunha (2002).
Em fim, o que queremos mostra é justamente este globalismo que acreditamos está manifestado na obra de Pessoa, mostrada como mensagem, em um intercambio com o livro Os Lusíadas do poeta Camões. Sabendo que os dois poetas, como se observa na biografia de ambos, viveram em diferentes culturas. Pessoa morou na África do Sul, falava inglês e viajou por varias partes. Camões da mesma forma. O poeta Camões em especial é um profundo conhecedor de varias culturas por ter combatido e morando em partes da rota marítima feita pelos portugueses. Isso lhe deu o privilégio de conhecer o mundo.
O que se evidencia nas obras aqui discutidas é o globalismo que falamos antes, como Fernando Pessoa viu este fenômeno em Camões e sua ligação com a união de povos e culturas em uma cadeia global antes desconhecida do mundo tido como moderno que era a Europa. 

CONCLUSÃO

É evidente que Camões e Pessoa viveram em períodos diferentes, mas sendo os dois poetas de uma criatividade estupenda, observamos que sempre estavam preocupados com seu povo, sua pátria e sua cultura. Portanto, a obra destes dois vultos da literatura portuguesa se mostra para alem de um simples regionalismo, se englobam em um contexto muito mais universal que nacional.
O que se diferencia nestes dois poetas é este universalismo que trabalharam em suas obras, enaltecendo Portugal, e a contribuição que seu país deu ao mundo explorando e mostrando suas culturas.
Logicamente que não podemos deixar de lado as tragédias causada pelas explorações feita por Portugal em suas colônias, mas de certa forma, temos que reconhecer que houve sim uma integração entre os povos.
A obra de Fernando Pessoa localiza a mensagem na obra de Camões, e qual é esta mensagem? A de novas conquistas, novas terras, novas culturas, em um globalismo, de ligação entre povos e nações emergentes, e um novo olhar sobre a língua portuguesa. 


REFERÊNCIA

PESSOA, Fernando. Mensagem. Disponível em: < http://www.cfh.ufsc.br/~magno/mensagem.htm > Acesso em 10 de jul. 2013.

CAMÕES, Luis Vaz. Os Lusíadas. Disponível em: < www.nead.unama.br > Acesso em 12 de jul. 2013.

RAMOS, Manuel Paulo. A vida de Camões. Coimbra: Porto, 1973.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Martins Claret, 2002

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa.  São Paulo: Cultrix, 2005.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. disponível em:  < http://www.priberam.pt/dlpo/ > Acesso em 12 de jul. 2013.










  


[1] Graduando do 6º semestre do curso de Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia- UNEB- Campus XXII- Euclides da Cunha/BA- E-mail: damaris_dam15@hotmail.com
[2] Graduando do 6º semestre do curso de Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia- Campus XXII- Euclides da Cunha/BA- E-mail: gilvanete_girl@hotmail.com
[3] Graduando do 6º semestre do curso de Letras  Vernáculas na Universidade do estado da Bahia- UNEB- Campus XXII- Euclides da Cunha/BA- E-mail: paulmontec@hotmail.com

[4]  Poema que inicia a primeira parte do livro Mensagem de Fernando Pessoa.